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"Durante muito tempo acreditei que a principal explicação da razão porque a história está tão cheia de atrocidades e barbárie teria de ser procurada no
tédio. O tédio é um dos exclusivos do animal humano, uma intemperança zoológica como o riso ou a presciência da morte (as três juntas, passando pela linguagem, são a origem da nossa especialidade mais famosa: o pensamento). Quando as coisas correm discretamente bem, nós, humanos, aborrecemo-nos: então começamos a meter-nos com os vizinhos, ou a desejar espécies raras que só existem em terras longínquas e que para serem obtidas é preciso enfrentar mil dificuldades, ou inventamos ameaças sobrenaturais para assegurar as emoções que nos faltam. A gente que fica em casa entretida com as suas coisas raramente faz mal a alguém: o trágico da vida é que em casa a maioria das pessoas aborrece-se. E como se aborrecem, proclamam que ficar tranquilamente em casa é coisa de cobardes, de egoístas, de maus patriotas...
... A grande batalha deste mundo efectua-se entre os que desfrutam ficando em casa e os que em casa se aborrecem, pelo que sempre estão dispostos a ir para a rua. Rivarol assinalou que em caso de algazarra (revoluções, golpes de estado, perseguição de hereges e coisas assim), ganham sempre os que saem à rua e que, por isso, todos os distúrbios históricos costumam acabar mal: os sensatos que ficam por casa a ver o que se passa perdem infalivelmente, derrotados pelos chalados, pelos levianos, pelos utilizadores, pelos criminosos, isto é, pelos entediados... Com razão comenta Nietzsche: "Mais do que ser felizes, os humanos querem estar ocupados. Todo aquele que lhes proporcionar ocupação é, portanto, um benfeitor. A fuga ao aborrecimento! No Oriente a sabedoria acomoda-se ao aborrecimento, proeza que aos europeus se torna tão difícil que suspeitam que a sabedoria é impossível."
... Continuo a pensar que o aborrecimento é ingrediente fundamental das desventuras históricas, mas agora vou dar cada vez mais importância à estupidez.
... o professor italiano [Carlo Cipola] diz que os evidentes e numerosos males que nos afligem têm como causa a actividade incessante do clã formado pelos maiores conspiradores espontâneos contra a felicidade humana: a saber, os estúpidos. Nada de confundir os estúpidos com os tontos, com as pessoas de poucas luzes intelectuais...."
Fernando Savater, O meu dicionário filosófico, 136-137 (excertos)
imagem: Park, J., le silence 45 (1994)
by the way
-tinha-me perdido deste texto, com o desvario em que trago os meus livros.
-já o quis colocar aqui a propósito de vários "acontecidos" aí pelo país e pelo mundo.
-hoje coloquei-o porque o encontrei. mainada!