31 janeiro, 2008

...é o povo senhor....porque lhe dais tanto ardor.... porque se expressam assim?



com a devida vénia à Liga dos Últimos

E por vezes as noites duram meses

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes


ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes

num segundo se envolam tantos anos.

David Mourão Ferreira
Fotografia David Mourão Ferreira em:www.lxjovem.pt

29 janeiro, 2008

e por falar em mulheres (take 2)







 Rosa Mota




também se federaram para lhe tirar o tapete...mas a ela nem o rolante!!!...


e por falar em mulheres...

Maria de Lurdes Pintasilgo
(fotografia em: http://www.arquivopintasilgo.pt)

Não foi condenada à morte, nem presa, mas tiraram-lhe o tapete várias vezes...


"tólas" gregas com estes talibãs...

hoje é dia 29 de Janeiro do ano da graça de 2008 d.C. (de acordo com o calendário gregoriano)

ouço as notícias à hora de almoço...uma rapariga foi presa no Irão ... disfarçou-se de rapaz para ir ver um jogo de futebol...foi descoberta...no Irão as mulheres estão proibidas de ver jogos de futebol.

há muitos, muitos anos, a.C. (não sei a data de cor, nem tenho à mão modo de verificar)

conta-se que uma mulher, Killapateia (não garanto a grafia) que vivia na Grécia, onde os jogos olímpicos eram só para homens, não resistiu ao apelo da festa... com o marido e o filho a competirem, vestiu-se de homem para poder assistir aos jogos. o filho ganha e a alegria é tanta que, ao celebrar, as roupas caem ... fica descoberta e...é descoberta!. só lhe foi retirada a pena de morte por ser mãe de campeão.

sem mais comentários



imagem - ballplayer - em:http://www.historyforkids.org

28 janeiro, 2008

andar à nora....











"Duas tarefas do início da vida: restringir cada vez mais o teu círculo e verificar constantemente se não te encontras escondido algures fora dele." F. Kafka in Aforismos Ed. Ulmeiro, 26




(sobre)vivência cromática


Jackson Pollock - Pintura

(sobre)vivência corporal

Picasso: acrobata

27 janeiro, 2008

quadra solta ...



acabei por ficar triste
c’o sucesso da indiferença
ou mesmo só com a ausência
do tempo em que me viste

e eu te vi por me olhares
do modo que tu tentaste
que eu te visse... já que olhaste
para mim de outros lugares.

mas... estás aí sem dizer,
sequer que não tens palavras,
num lugar que só tu lavras
e onde eu não posso ser.

por isso... morri de ti,
já não sou assim agora.
(eu não posso ser de fora
se por dentro já te vi).

Porto, 30/03/01


imagem (moldura arte nova) em: http//portuguesbrasileiro.istockphoto.com

... cadeiras prendadas e prendas sentadas...

Cadeiras e Metáforas(1)

Uma cadeira para a vida:
Costas direitas,
Pernas fortes
E assento.
Uma cadeira que ajuda:
A tomar as refeições
A conversar
Descansos rápidos, retemperadores.
Senta-te na cadeira e lê um livro.
Senta-te na cadeira e escuta. Atenta ao que têm para te dizer.
Senta-te na cadeira e diz, ainda melhor, só aquilo que é preciso ser dito.
Sobe à cadeira para te ajudares a ir mais alto e ao mais difícil.
Dispõe a cadeira em harmonia com as outras cadeiras, com a mesa, com os quadros, com as flores da tua casa.
Ergue decidida a cadeira quando for preciso mudar-lhe a posição. Não a arrastes nunca, pelo ruído e pelos riscos... 
Se aparecerem os ladrões da tua vida não hesites:
Arremessa-lhes a cadeira enquanto podes, mas só em último lugar.
J…, subverte o jogo da cadeira para que, na tua casa, caiba sempre mais um amigo.
2 de Maio de 2004
imagem: Van Gogh, cadeira com cachimbo

(1) A propósito da prenda de casamento da J…. (na qual me vi envolvida, mas para a qual não fui ouvida nem achada), na minha (necessitada) procura de sentidos para uma cadeira que se torna prenda de casamento.

26 janeiro, 2008

baú de encontros com química




Mileva Maric e Albert Einstein


(?) e Albert Einstein







Física


Grega te viste de tanta causalidade,
para entender elementos, a natureza,
chegam as leis do movimento à cidade
e o Aristóteles todo treme de incerteza.

E hoje em dia? Como vês propriedades,
a matéria e as leis que a vão regendo?
Olhas agora com relatividade,
já vês contextos, espaço-tempo, acontecendo.

És muito ufana do teu especial estatuto,
com método armado de universalidade,
por uma nota positiva em estado bruto.

Mas, este é um tempo de "regionalização"...
o Big-Bang questiona-te a unidade
de forças várias, do
quark... Eis a questão!

escrito em 1986 - para um amigo preocupado com as coisas da Física

imagem da direita: (Mileva Maric e Albert Einstein) em www.alpoma.net
imagem da esquerda: não faço a mínima ideia, chegou-me por e-mail

PAZ PONTUAL

Tempos de agora, com outroras bem presentes,
(é este o chão que nos foge para o futuro)
vivem-se em ritmo interior com umas lentes,
que de fora nos impõem estilo duro.

De eficácias e realismos dourados,
chegam miragens que alimentam ilusões,
de oásis em desertos confirmados,
com o poder que podem os saltitões.

E só se salva quem saltar sem tom nem som,
viver de "jás" em prisões de quantidade,
lado de fora de quem ama a liberdade

radical de ir ao fundo, de estar com.
Nestes saltos sobressaio incapaz.
Quero o contrário de ZAP(ing) que é PAZ!

S/D (escrito há bastante tempo, mas não antes da proliferação dos comandos remotos...)
imagem: Picasso, Cara e Pomba


25 janeiro, 2008

...eloquência...








quem ontem, ao fim da tarde, me enviou uma mensagem que incluia estas imagens percebe mais de pessoas do que um tratado de anagogia humana com 12 Tomos e 54 anexos...

uns falam falam falam mas não os vejo fazer nada
outros falam falam falam e fazem o que lhes convém
outros falam falam falam e chegada a hora fazem (quase) como os outros... só alargam um pouco o espaço da conveniência
outros calam e fazem-na pela calada
outros calam e falam e calam e às vezes falam mas são comovedoramente humanos na sua imperfeição

outros são diferentes ... ainda há pessoas estruturalmente diferentes. ..é preciso estimá-las... protegê-las... são uma espécie em vias de extinção?

Eusébio (take 2)


(Declaração de interesses: Não sou benfiquista nem especial adepta de futebol. Gosto de desporto por motivos que não se esgotam no espectáculo de profissionais).

O Eusébio faz hoje anos

Em 1990 eu estudava fora do país. Num tempo em que Portugal contava ainda menos, nos países da "Europa". Num Sábado, esperava alguém que me ia buscar à residência de estudantes, para passar o fim de semana fora. Para facilitar desci do meu apartamento e esperei no átrio. Nesse átrio "morava" um "mendigo" que, recorrentemente, fugia à segurança social para se albergar naquele espaço quente onde o convívio com os estudantes que ocupavam os 25 andares do prédio lhe permitia (sobre)viver. Era um homem gasto e permanentemente ébrio. Saído do seu torpor interpelou-me quanto à minha nacionalidade. Para evitar conversa (eu mal entendia o que ele dizia) respondi-lhe que adivinhasse. Ele levou a sério e foi dizendo...i taliana, espanhola, turca, grega, iraniana, jugoslava, francesa,...Às tantas, o meu metro e sessenta e pouco, moreno, cabelos e olhos castanhos, já dava para ser holandesa, sueca e sei lá que mais. Portuguesa? Nada... De repente, dei comigo quase furiosa. A minha vontade de o entreter com o exercício de adivinhação, foi completamente virada do avesso, por um assomo de "patriotismo" que nem eu mesma sabia que tinha e que, convenhamos, naquela circunstância era completamente inútil. Segura de mim, disse bem alto: SOU PORTUGUESA, DE PORTUGAL! Sabe?
Soergueu-se um pouco da cadeira de baloiço onde pernoitava e passava os dias a beber cerveja e ronronou absorto...Ah! Benfica, Eusébio...

(repetição revista do post de 25 de Janeiro de 2007)

24 janeiro, 2008

exo e endo cansaço


cansada,
cansa da
cansada!

contrição

"Citações. Não me refiro aos rendez-vous, mas àquelas poucas linhas alheias que são incluídas com este ou com aquele propósito no próprio texto. Citar é uma arte, manchada pela proliferação de incompetentes e pedantes.
...Porquê citar? Há duas razões: a modéstia e o orgulho. Cita-se por modéstia, reconhecendo que a certeza que se compartilha tem origem alheia e que se chegou depois. Cita-se por orgulho, já que é mais digno e mais cortês como disse Borges (perdoar-me-ão a citação?), termos orgulho das páginas que lemos do que das que escrevemos. Do mesmo modo que o viajante fala do que viu nas suas andanças, ...que o caminhante junta as flores que encontrou num ramalhete e o oferece à pessoa querida, citar é outra forma de dizer "não vivi em vão" (neste caso "não li em vão") e também "estava a pensar em ti". Nada disto tem a ver com o afã da erudição pois erudição não é mais que o pó que cai de uma biblioteca nun crâneo vazio, segundo o lapidar ditame de Ambrose Bierce no seu dicionário do Diabo (santo céu, mais uma citação)."...

Excertos da entrada "Citações" - Dicionário de Filosofia de Fernando Savater, Publicações D. Quixote, 65-66

peço palavras emprestadas quando:
sei que já disseram muito melhor o que quero dizer...
sei que já disseram melhor o que sinto e não sei dizer
gosto do que li e quero partilhar

tomem, então, as minhas longas citações como ramos de flores ... (só espero que ninguém tenha alergias rsrsrs)

imagem de cima: em:http://blackseyr.files.wordpress.com/2007/08/livros_logo.jpg
imagem de baixo: Picasso, Flores e Mãos

19 janeiro, 2008

... recordação actual do trabalho dos tremores ...

"Coimbra, 28 de Fevereiro de 1969 - Violento tremor de terra, que segui calmamente deitado, à espera que me caísse o tecto da casa em cima. Talvez porque a agressão era impessoal, gratuita, irresponsável, apoderou-se de mim um sentimento de razão total, de inocência total, de indiferença total pelo que pudesse acontecer. Ficou apenas a curiosidade a observar o fenómeno. Ou então foi a certeza de que, se as coisas chegassem às do cabo, a hecatombe seria geral. Tão verdadeiro é em nós o apelo da manada, que até a morte em comum deixa de nos aterrar". Miguel Torga, Diário XI, 37-38.

Nota
(Literalmente )
Recordo-me bem deste sismo. Era miúda. Acordei rapidamente com a cama a fazer de berço de embalar turbo e pensei ensonada e também muito depressa: "é um tremor de terra". Virei-me para o outro lado ajudada pela noção clara de que não podia fazer nada e readormeci. Assim...


Bitaites actuais e símiles
1) nem todos os sismos institucionais dão "cismas" esclarecedores ... olhó último parágrafo do Torga.
2) ainda assim, só assistir, pode ser uma forma poupadinha de resistência e resguardo do apelo da manada...
3) afinal, apesar de alguns rodriguinhos (é a vida!) ainda deduzo alguma coisinha de forma prática ... contextualizo ... "pragmatizo-me"... (é diferente de me render)...
4) cismar nisto é preciso ... (cismar sim, porque estou apreensiva) para clarificar ... para perceber papéis... para não andar aos papéis existenciais... para "encaixar" conjunturas onde existimos na estrutura do que somos... encontrar algum sentido para as (re)acções...
5) sem ensimesmar. ah! e a mesmice não convém. a nada.

imagem: Dalvador Dali - relógio (?)


18 janeiro, 2008

...associações óbvias...recursos de sonho...

Adivinha

Sou gigante e gigantão,
maior e muito mais alto,
que os outros que estão no chão
chamem os outros por mim
de longe, com aflição,
e em vez de dizer que sim.
aceno a dizer que não.

in Adivinhas Populares Portuguesas, de Viale Moutinho, ed. Notícias, 94

imagem: D. Quixote e Sancho Pança de P. Picasso



Resposta: Moinho de Vento

17 janeiro, 2008

labor improdutivo

clicar na imagem para "visualizar"!

Nem sempre a perseverança é virtuosa
Nem sempre o esforço é interessante
Convém definir o para quê?
Ainda que os porquês sejam difíceis
E os comos estejam demasiado à mão.

16 janeiro, 2008

liberdade inicial






liberdaaaaaaaaaaadeeeeeee

coisitas e bocejos

"Anunciam os sociólogos o advento próximo de uma humanidade sem alma, de superfície, fútil, a viver despreocupadamente o quotidiano, feliz, liberta de inquietações de qualquer ordem, políticas, morais, religiosas ou cívicas. Cada qual contente da sua condição singular, alheio ao poder, à autoridade, aos problemas do mundo. E fico-me a pensar no que será o amanhecer desse feriado egotista no longo calendário agitado do tempo. É que pergunto a mim mesmo se, depois dele, os pesadelos que agora nos afligem não voltarão redobrados. Quanto mais profundamente se dorme, mais estremunhado se acorda com a realidade. Ninguém vive indefenidamente entre parêntesis." Miguel Torga, Diário XV, 95 (sublinhado meu).

(Nota pessoal)
realmente este diário (XV) do Miguel Torga, que me fez companhia quando eu estava fora do país em 1990 (e, por opção não tinha nada para ler em português, a não ser o Expresso do fim de semana em que viajei, e que nunca consegui deitar fora, e que reli tantas vezes que quase sabia de cor os anúncios*) tem um lugar muito especial na minha vida. bebi as suas palavras de um modo tão intenso que além de (quase) o decorar, continua, ainda hoje, a ser um amparo, um refúgio e uma ajuda preciosa para eu enquadrar e expressar o que muitas vezes sinto e entendo mas ainda não sei dizer. bem aventurados os meus queridos M. e C. que, sabedores do meu gosto pelo Miguel Torga, mo mandaram pelo correio, mal ele foi publicado.
* isto sim, são saudades


Bitaites:
1) hoje em dia tenho mais em conta a pedagogia da alegria e não só a pedagogia da dor. mas... isso não significa que seja adepta do processo de alienação. se é necessário doer que doa. o que é preciso é que a dor não se torne num lema de vida, mas num instrumento de crescimento.
2) meter a cabeça na areia é para quem tem vistas curtas e só consegue ver a curtíssimo prazo. nem momentaneamente se justifica. quando se quer ganhar fôlego não se vai para um lugar onde falta o ar.
3)as pessoas e as instituições que assobiam para o ar e tentam "resolver" os desafios que lhe são colocados de forma preguiçosa e, obviamente, de forma atabalhoada, prestam um mau serviço a toda a gente e a si próprios. condenam-se, mais tarde ou mais cedo.
4) ora, uma das definições de estupidez passa por isto: pessoas estúpidas e, por analogia, instituições estúpidas são as que tomam decisões e realizam acções cujas consequências são más para todos... para si próprios (pessoa ou instituições) e para os outros.
5) e assim, pessoas e instituições passam a ser anãs que, energicamente, bocejam.

15 janeiro, 2008

de pequenino se torce o destino (sem me esquecer que o Sérgio Godinho tem um album com este título)

ao cuidado de quem decide sobre o currículo das nossas crianças e jovens nas escolas portuguesas, na convicção de que convém ao ser humano (ómem com ó grande, como diria o inefável João Pinto ex-jogador de futebol do FCP) que todas as expressões sejam expressamente trabalhadas...expressões...corporal, plástica, musical ... e, se possível, de um modo integrado.
é um mero, simples, e muito pititi contributo deste post.


imagem: "composição" com um desenho infantil (jogo das bolas) e Círculo (dança) da Amizade de Picasso


14 janeiro, 2008

pragmatismo ... mainada! (sabedoria pop)



eu cortei o pinheirinho
eu cortei-o está cortado
eu deixei o meu amor
eu deixei-o está deixado!

(quadra popular)





imagem em: handcraftebyguapa.blogspot.com

13 janeiro, 2008

todo, tudo, em tudo...ao luar de janeiro

[PARA SER GRANDE, SÊ INTEIRO: NADA]

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Fernando Pessoa/ Ricardo Reis

imagem: Homem do Vitrúvio . desenho de Leonardo Da Vinci.

se até o Kafka diz...


"Se caminhasses por uma planície, te esforçasses por avançar e, no entanto, os teus passos te levassem para trás, seria desesperante; mas como tu sobes uma ladeira íngreme, tão íngreme como tu próprio visto de baixo, os passos para trás só podem ser causados pela natureza do terreno, e não deves desesperar." F. Kafka, Aforismos, Ed. Ulmeiro, 10


"bitaites"
1) nos dias do senhor dá-me sempre assim um amok tipo sei lá...introspectivo a que nem o Kafka escapa. hoje é tudo ampliado com este tempo atmosférico de muita chuva no cabelo e ar cinzento no olhar. e acrescido pelo recolhimento aconselhado que me impele ainda mais para dentro.
2) mas... outro dos meus amoks não se fica e ...espreita e...arranja uma edelweiss ...

12 janeiro, 2008

... a objectiva física ...


Só numa quantidade reduzida, com condições e parâmetros como o nosso universo, será possível o desenvolvimento de vida inteligente, que porá a questão: "Porque é o universo como o observamos?" A resposta é, obviamente, que, se fosse diferente, não haveria ninguém para colocar a questão.
Stephen Hawking in O Fim da Física, ed. Gradiva, 60

imagem: Pablo Picasso, Estudo para Yuri Gagarin


cinegética

Um caçador
perdeu a cedilha
e por isso
sua mulher
nunca mais
quis ir à caça
com ele
sem cedilha

Mário Henrique Leiria in "Contos do Gin Tónico", Ed. Estampa, 77

Ç (C de cedilha)


11 janeiro, 2008

este post tem tudo a ver com o anterior... e a leveza do "concreto" também ajuda a colocar as questões

Havia um Tarzan
chamado Johnny
andava de tanga
e gritava Oíóôí

Vivia na selva
de lianas pendentes
e tinha uma macaca
velhinha sem dentes

Matava o Tarzan
cobras e panteras,
hienas, leopardos
e mais outras feras

Um dia do céu
caiu um aeroplano
de tela e madeira
e fuselagem em cano

Dentro dele seguia
formosa donzela
nívea e delicada
vestida de caqui

Seu nome era Jane
menina prendada
que Tarzan amou
de forma elevada

Aprendeu a ler
escrever e contar
e os modos distintos
de quem sabe estar

Divertiam-se muito
e eram felizes
tinham bichos amigos,
mas não geraram petizes

Então o produtor
para mais feliz fim
levou-os a Hollywood
para um grande festim

Jane veio a apaixonar-se
por um galã malvado
deixando Weissmuller
assaz desamparado

De fato completo,
e pasta na mão
Jonhy foi para a selva
mas a de aço e betão

Não tinha elefantes,
lianas e anões
mas tinha sujeitos
mais maus que leões

De Jane se soube
que teve uma filha
E que Tarzan louco,
acabou aos berros,
em longínqua ilha

Jorge Avidal in Instantes, Lugares Evasões, Ed Campo das Letras, 62/64




10 janeiro, 2008

mais uma vez, e outra e sempre

"Que haja diferentes modos, estilos ou formas de vida, o leitor estará sem dúvida de acordo. Pois bem, Aristóteles distingue três tipos: a vida voluptuosa, a vida política e a teorética. Os que escolhem a primeira órbita identificam a felicidade com o prazer. Aristóteles não se mostra condescendente com eles. "Os homens vulgares mostram-se completamente servis ao preferirem uma vida de animais". Desde Platão até Bertrand Russel que se repete a metáfora: "O porco deseja uma felicidade de porco." John Stuart Mill modificou um pouco a frase: "Prefiro ser um homem desgraçado do que um porco feliz". Aristóteles expõe um problema de grande envergadura, que já mencionei ao tratar os níveis de evidência. Em cada nível as evidências são irrefutáveis. O que é refutável é o nível. Para quem escolhe, como diz Aristóteles, a vida voluptuosa, falar-lhe de outro tipo de satisfação é quimérico. "...

José Antonio Marina in Ética para Náufragos Ed. Caminho 172/173

"Bitaite"

e no tempo deles não havia pipipis de quartzo, nem malas de fechos cromados, nem gps's para chegar ao topo, nem gurus da eficácia, nem mezinhas da comunicação...

08 janeiro, 2008

não, não é...

Não, não é cansaço

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento, um feriado passado num abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta -
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...

Como quê?
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola de outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...

Fernando Pessoa in Poemas de Álvaro de Campos, Ed. Imprensa nacional - Casa da Moeda, 287-288

imagem em: oz.stephan-brumme.com

poetura & pinesia 2

CARNAVAL DE ARLEQUIM (Miró)

Descobri que a vida é bailarina
e que nenhum ponto inerte
anula o viravoltear das coisas.

Carlos Drummond de Andrade in Farewell, Ed. Campo das Letras, 33.


07 janeiro, 2008

poetura & pinesia




SAPATOS (Van Gogh)

Cansaram-se de caminhar
ou o caminho se cansou?


Carlos Drummnond de Andrade, in Farewell, Ed. Campo das Letras, p.33


imagens: http://www.vangoghgallery.com/catalog/Painting/

06 janeiro, 2008

Luiz Pacheco: morreu, no hospital do Montijo, aos 82 anos

"Chamo-me Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco, ou só Luís Pacheco, se preferem. Tenho trinta e sete anos, casado, lisboeta, português. Estou na cama de uma camarata, a seis paus a dormida. É asseado, mas não recebo visitas. Também não me apetece fazer visitas. A Ninguém. Estou bastante só. Perdi muito. Perdi quase tudo.
Perdi mãe e perdi pai, que estão no cemitério de Bucelas. Perdi três filhos - a Maria Luísa, o João Miguel, o Fernando António -, que estão vivos mas me desprezam (e eu dou-lhes razão). Perdi amigos. Perdi Lisboa; a mulher, a Amada, nunca mais a vi. Perdi os meus livros todos! Perdi muito tempo, já. Se querem saber mais, perdi o gosto da virilidade; se querem saber tudo, perdi a honra. Roubei. Sou o que se chama, na mais profunda baixeza da palavra, um desgraçado. Sou e sei que sou.
Mas, alto lá! sou um tipo livre, intensamente livre, livre até ser libertino (que é uma forma real e corporal de liberdade), livre até à abjecção, que é o resultado de querer ser livre em português.
Até aos trinta e sete anos, até há bem pouco tempo ainda, portanto, julguei que podia, era possível, ser livre salvar-me sozinho, no meio de gente que perdeu a força de ser (livre e sozinha), e já não quer (ou mui pouca quer) salvar-se de maneira nenhuma. Julgava isto, creiam, e joguei-me todo e joguei tudo nisto. Enganava-me. Estou arrependido. Fui duro, fui cruel, fui audaz, fui desumano. Fui pior, porque fui (muitas vezes) injusto e nem sei bem ao certo quando o fui. Fui, o que vulgarmente se chama um tipo bera, um sacana. Não peço que me perdoem. Não quero que me perdoem. Não quero que me perdoem nada. Aconteceu assim.
Eu para mim já não quero nada, não desejo nada. Tenho tido quase tudo que tenho querido, lutei para isso (talvez o merecesse). Agora já não quero nada, nada. Já tudo, tanto me faz; tanto faz.
Agora oiçam: tenho dois filhos pequenos .... "

Luiz Pacheco in Exercícios de Estilo , Ed. Estampa, pp.161/162

"bitaites" :
1) tenho dificuldade em compreender alguns exageros. por uma razão simples. coloco-me sempre a pergunta: e se todos fizessemos/fossemos assim? (temos
todos o mesmo direito, ou não?).
2) outra dificuldade: entender a liberdade sem o "outro". a tal liberdade desabitada.
3) neo-abjeccionistas há muitos. manifestam-se de formas diversas (mas nada sinceras como a da declaração apresentada), uns mais rebuscados, outros declaradamente xicos-espertos, outros, inexplicavelmente(?!), muito burros!


ah! as gralhas


O ATRO ABISMO

Quando o poeta escreveu: "...o atro abismo",
Umas vírgulas por ele mal dispostas,
Irritadas gritaram: "É estrabismo!".

Mas um ponto que viveu no dicionário,
De admiração caíu de costas
E abismado seguiu o seu destino...


Alexandre O'Neill, in Poesias Completas, Ed. Imprensa nacional - casa da Moeda p.95


Fotografia "sacada" em: http://images.google.pt/imgres?imgurl=http://3.bp.blogspot.com/

03 janeiro, 2008

02 janeiro, 2008

nasceu uma estrela


no passado dia 28 de Janeiro.
nasceu o A.
parabéns à mamã J. ao papá A. ao irmão A. e... ora bem, à babadíssima avó O.

é o futuro a preparar-se!

boas entradas ou... entradas há muitas ...



" _ Eu entrei na pintura por emoção. A primeira vez que vi o sol desaparecer no mar, a impressão que isso me fez! Era ainda muito pequena, tão pequena que nem sabia que aquilo era o pôr do Sol, mas fiquei com aquela recordação..."

in Conversas com Sara Afonso, de MJAN, Ed. D. Quixote



01 janeiro, 2008