27 junho, 2008

conversas com a Isaura (4)

Querida Isaura:

Escrevo por causa de coisas banais, como sempre. Tenho andado com uma dor estranha no braço esquerdo. Como nunca mais passa, resolvi estar um pouco mais atenta. Até porque me limita e me faz pensar se não será já a ferrugem instalada! A ser assim é castigo prematuro!
Mas, querida Isaura, escrevo-te porque esta dor me recordou um outro tempo, em que também tive dores nas costas e no braço esquerdo. Não sei se te recordas, porque já lá vão uns anos, mas era uma altura em que eu conduzia bastante o meu segundo Clio. Não seria relevante em tempos ter trocado de Clio para Clio, se este segundo, contemporâneo das queixas álgicas nas costas e no braço esquerdo, não fosse de uma cor tão feia que eu, quando cheguei a casa com ele, a primeira coisa que fiz foi pedir desculpa pelo facto ao meu filho! O primeiro Clio era claro, já não sei se branco branco se cinzento muito claro. O segundo, como eu pensava na altura, era "cor de burro quando foge". E, só por respeito ao astro, eu não dizia que era lindo como o sol (ora tenta olhar para o sol Isaura, a ver se consegues... não se pode olhar para ele). Mas, como os carros para mim só têm a única e restrita função de me transportar, apesar de noutros aspectos ser notoriamente exigente, a diferença de preço era tal que aceitei conduzir um carro feio e sem "código postal", num tempo em que já era corriqueira a direcção assistida.
Voltemos então à dor antiga. Como sabes, tenho um amigo médico dessas maleitas. Falei com ele na altura, que me doía, que...! Já não me recordo muito bem dos meandros da conversa clínica. Só recordo a forma eloquente, directa e mordaz como rematou:
_ Isso não lhe passa assim, sem mais. Ou deixa de conduzir, coisa que, julgo eu, agora não pode fazer, ou, então ... vende a viatura e compra um carro!

Não te maço mais por hoje!
Beijos

O(s) vário(s) epílogo (s) para que não te preocupes em vão:
[O clio lindo como o sol, acabou nas minhas mãos com o lado esquerdo todo "dentro" (vinguei-me) porque num dia de muita desesperança e raiva, ao entrar no portão da casa de uma amiga só não levei o portão comigo porque o Clio é que lá deixou chapa e tinta!]
[Só comprei o "carro" quando deixei de conduzir muitos Kms com regularidade...Sou mesmo do contra...]
[A dor actual, até nova ordem, é uma "tendinitezeca"]



Janis Joplin: Mercedez Benz
imagem: Warhol A., cars mercedes typ 400 bj 1925 gelb


7 comentários:

Duarte disse...

Os anos passam, querida Isaura, e acabamos com mais teclas que um piano. A menina que te escreve, e que tanto se lamenta, passa o dia a dar-lhe aos dedos e isso sim tem repercussão no que ela se queixa, mas sarna a gosto não pica.
Deixa que fale, tu não te deprimas, nem te deixes influenciar. Sabes que estas coisas se podem adquirir por transmissão verbal
Beijinhos e muita saudinha

Anónimo disse...

Tem de satisfazer a minha curiosidade (só acompanho o seu blog há relativamente pouco tempo...) : "quem" é a Isaura ?...
:))
José-Carlos

Véu de Maya disse...

Reflexos do tempo e a fresca sensilidade da Maria do Sol para os partilhar...
Quanto às tendinites devem ser uma chatice...É preciso combater a ferrugem e abanar o capacete.

:)

um Ar de disse...

Também conduzi um Fiat Tipo que o senhor da garagem, onde o guardava [agora o carro que fique na rua...], me dizia que era coisa para homens de barba dura e eu não tinha esqueleto, nem músculos para o conduzir. Vá lá, era branco...
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Pois ainda fiz muitas viagens Porto-Castelo Branco-Alcains e Porto-Baião e Porto- Proença-a-Nova e dei cabo do esqueleto e o homem, quando me via, olhava-me com um ar suspeito!...
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Claro que não tinha direcção assitida, mas não foi fácil desistir dele. Tinha 4 portas mas era um autêntico dois lugares, quando transportava a "casa" de um lado para o outro. Foi de grande utilidade e nunca me falhou, quando eu mais precisei.
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Quanto à dor no braço esquerdo... ainda se fosse no direito... podia ser a minha tendinite, de passar tantas horas no PC, com o nosso amigo "rato". O meu filho insiste em que devia desistir dele, mas não me habituo. Gelo! Acho que é gelo que se põe [felizmente está calor].
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A não ser que sejas "esquerdina"... és? Ou, como a minha irmã, insistas em carregar os grandes pesos no ombro esquerdo, para libertares a mão direita, sei lá, a pensar em alguma eventualidade!... Dar uma chapada em algum atrevido [coisa que eu sou menina para fazer com a esquerda ou com a direita, felizmente].
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Mas, talvez a Isaura tenha alguma ideia sobre o assunto. Porque, de médicos e loucos, está visto, temos todos um pouco!
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Ah... Há médicos mesmo cínicos! Também já apanhei alguns, assim. Um consolo para o doente!
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Acho que não é só da idade. Parece-me que tem mais a ver com o nosso estilo de vida... mudemos de estilo!...
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[beijo.......]

Manco do Arco disse...

Menina,

Compreendo-a perfeitamente. As suas dores foram provocadas pelo carrinho. Ele há carrinhos assim…perversos. As minhas, que são várias e em diferentes localizações, têm a sua causa na bengala.
É um bengala rígida, nada assistida e feita de pau. Estou convencido que foi a dureza do que se me subiu pelo braço.
O meu compadre Rebelo diz que o pau não é o culpado mas sim o peso dos meus anos. Mas eu sei que não, da mesma forma que a menina sabe que a culpa das suas cruzes está no carrinho, a culpa das minhas está na bengala.

mdsol disse...

duarte:

Transmitirei à Isaura
rsrsr
:)

José-Carlos:
A Isaura meu caro, é uma figura híbrida. Começou por ser uma "estátua" em Xisto feita por um artesão de Gondramaz, na Serra da Lousã. No dia em que lá fui, não havia muito por onde escolher. Mas, se eu trouxe uma pedra pesadíssima dos Açores, sem mais nenhum trabalho que não o feito pela natureza, mais depressa trouxe a "estátua" esculpida numa pedra de xisto ainda que de forma relativamente tosca. Depois, a propósito de qualquer coisa chamei-lhe Isaura. Um dia reparei que ela estava num canto relativamente modesto aqui de casa! Afeiçoei-me à ideia de haver uma Isaura sozinha, a precisar de notícias de alguém, ou então, assumi que há em mim também uma Maria que gosta de partilhar histórias e pensamentos mesmo que insignificantes. Por puro prazer de de dizer. Como vê, não é nada de extraordinário. A não ser uma certa dose de "delírio"!
Mas como dizia a minha amiga Chilena "a loucura é o sol que não deixa a razão apodrecer"
Ufaaaaaaaa
:))

veu de maya
a tendinite passa...
:))

um ar de:
não cuido que o remate seja cínico! Acho até o contrário...preocupação com a minha segurança. A bem dizer não haveria necessidade...
:)

manco do arco:
:)

Tinta Azul disse...

Pois a mim doem-me as costas e as pernas...de andar de Metro. O pior é que me dói a alma quando reparo na marca do Metro: BOMBARDIER.
[Porque deve doer a vida inteira a muita gente. E esta não se troca como os carros}