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22 dezembro, 2010
cerca
Adams, Tracey
grey
Cinzento
Encontro partículas de cinzento em pensamento
ao afastar os olhos do interior
e não sei distingui-las das pedras
que vou colocando no muro
a pouco e pouco escondendo
os olhos que procuro.
Maria Sofia Magalhães, ciclo da pedra, I, se ficássemos por aqui devagar, edita-me, 23
01 dezembro, 2010
com três sílabas apenas ...
Wegman, William
Portugal
(2005)
fotografia
...
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...
Alexandre O'Neill, Portugal, feira cabisbaixa (1965)
[poesias completas 1951/1986, biblioteca de autores portugueses, INCM, 227-228].
03 agosto, 2010
a seguir à flor vem o fruto
Bascove
summer fruit
(1999)
DIÓSPIROS
Há frutos que é preciso
acariciar
com os dedos com
a língua
e só depois
muito depois
se deixam morder
Jorge Sousa Braga, o segredo da púrpura [o poeta nu - poesia reunida, 153]
21 maio, 2010
... da esperança
Earley, L.
journey of hope I
(s/ data)
SONETO
Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.
Hei-de cantar-vos a beleza de um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.
Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.
A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.
Carlos Oliveira
[Com os olhos bem abertos e tentando ver bem longe. Às urtigas quem só olha para o umbigo e não tem um horizonte sensível que mais alguém veja.]
12 maio, 2010
joaninha voa voa
.
Calder, A.
composition à spirale sur fond rouge
(1963)COCCINELA SEPTEMPUNCTATA
Entre cardeal e Pierrot, hesitas na indumentária,
Para a dança, ao som da cantata barroca.
A noite cresce, muito azul em torno de ti.
Abres a capa de pectina,
Ensaias o voo.
E partes,
Ínfima girândola de vermelho e negro.
Mário Cláudio, dois equinócios, ed. campo das letras, 81
08 outubro, 2009
suspiro

Voss, V.
l' ’ecume des jours
(1964)
Ivan Lins & Simone, começar de novo
Quase exausta e com a sensação de me gastar em minudências. O enfado que esbate a claridade dos dias. A nitidez das formas que se vai com o desinteresse. A espuma que vence o que devia ser líquido e cristalino. Sou, neste momento, uma taça de champanhe mal servido: muita espuma, muita espuma e só um poucochinho do que interessa lá no fundo.
19 julho, 2009
do que vivemos

Botero, F.
girl on a horse
(2001)
- Do que Vivemos-
Ao longe encontro-me a chorar a criança que fui!
Ainda?
Não passo de uma intenção de mim mesmo!
Sou eu e não sei ser outra coisa...
O teu coração não pode continuar a ser esse lugar que
já passou. A tua infância não é a terra prometida!
Porque tardas em acontecer?
Vai longo vagabundo, menino-prodígio!
Vai e espalha o teu corpo pelo mundo!
...
ex-Ricardo de Pinho Teixeira, greatest hits [maço de poemas XL ]
16 julho, 2009
a cal mar
27 maio, 2009
homenagens (2)

Modigliani, A.
woman with a necklace
(1917)
A PESCA
(para Amedeo Modigliani)
Gostava
de ir contigo
à pesca
Modigliani
deitar a linha
ao mar
Até ao fundo
e depois
sentir na mão
a palpitar
os rostos
que apanhasses
nos aquários
deste mundo.
Gostava
de ir contigo
à pesca
Modigliani
José Fanha, o riso das aves, 1987
ver também aqui
02 abril, 2009
en()traves(s)ias

Longmore, N.
the gate
(2006)
ATRAVESSAR O MINUTO
Atravessei a vida
sem parar um minuto
atravessei o minuto
sem saber a vida
Agora, que já nem sei de uma
nem de outra
sei apenas que atravessei algures
e sem dar por isso
Agostinho Santos, cadernos do silêncio, 23
[eu cumpro com a minha parte da tradição (poeminha e quadrinho ... a musiquinha não pode ser porque não sei que raio fiz aqui no "portátel" que, para tudo o que mexa, me pede umas coisas que eu nem sei o que são e muito menos imagino como instalar...) mas, as meninas e os meninos, não se esqueçam de ir votar na mentirinha aí em baixo! Se virem que tal, votem como anónimos, ora essa! a bem dizer o voto é secreto...]
13 março, 2009
acerca de joelhos *
10 março, 2009
expectativa de ... tempos bons, grandes dias ...

Saba, Richard
spring expectation
(1989 - 2001)
À CHEGADA DOS DIAS GRANDES
Da luva lentamente aliviada
a minha mão procura a primavera
Nas pétalas não poisa já geada
e o dia é já maior do que ontem era
Não temo mesmo aquilo que temera
se antes viesse: chuva ou trovoada
É este o deus que o meu peito venera
Sinto-me ser eu que não era nada
A primavera é o meu país
saio à rua sento-me no chão
e abro os braços e deito raiz
e dá flores até a minha mão
Sei que foi isto que sem querer quis
e reconheço a minha condição
Ruy Belo, homem de palavra(s), primavera, (todos os poemas, assírio & alvim, 242)
[este ano estamos ainda mais precisados... em sentido real e metafórico!]
Da luva lentamente aliviada
a minha mão procura a primavera
Nas pétalas não poisa já geada
e o dia é já maior do que ontem era
Não temo mesmo aquilo que temera
se antes viesse: chuva ou trovoada
É este o deus que o meu peito venera
Sinto-me ser eu que não era nada
A primavera é o meu país
saio à rua sento-me no chão
e abro os braços e deito raiz
e dá flores até a minha mão
Sei que foi isto que sem querer quis
e reconheço a minha condição
Ruy Belo, homem de palavra(s), primavera, (todos os poemas, assírio & alvim, 242)
[este ano estamos ainda mais precisados... em sentido real e metafórico!]
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07 março, 2009
04 março, 2009
ar de dúvida

Kahn, W.
over exposure to one color
(2006)
Fui ali à capital da "pérola" e voltei logo. Hoje, pela hora de almoço, estava eu placidamente sentada numa esplanada virada para o mar, com um mastodonte com nome de paquete em frente, mas, ainda assim, com muito mar e bastante sol para curtir, quando dei comigo a cogitar! Sim, na "pérola" eu não penso, cogito! Tinha o mar calmo à minha frente, estava um sol bonito e, imediatamente antes, tinha olhado para a encosta. Tinha percorrido aquele anfiteatro com olhos de sorver e tinha acabado de descobrir entre dois cumes e por entre a névoa, um terceiro cume, lá mais atrás, cheio de neve.
Pensei: se fosse turista punha-me de manga curta... (como a senhora que estava sentada na mesa ao lado, em calções, com as pernas alvas esticadas e os pés descalços apoiados numa cadeira, t-shirt de alcinhas para que não ficassem dúvidas sobre a sua alvura generalizada). Mas, como não era turista, deixei-me ficar com o casaquinho de malha cinzento clarinho vestido.
Às 14.40h voltei a pé para o local onde me iam buscar para me levarem ao aeroporto. Cruzei-me com gente de t-shirt, calções e chinelos, com gente de casaco comprido e botas, com gente em mangas de camisa...
Com o sol a dar-me na cara, a afastar-me do ar do mar e perdida completamente a vista da serra coberta de neve, cogitei com os botões do casaquinho de malha cinzento clarinho: decididamente o ar por aqui é mesmo muito plural! Será por isso que não há pluralidade para se gastar em mais lado nenhum?
Max, bate o pé
[embora tenha levado o "portátel" as condições da rede eram tão irritantes que mal usei a net... amanhã recomeço a matar saudades dos vossos cantinhos] :)))
Pensei: se fosse turista punha-me de manga curta... (como a senhora que estava sentada na mesa ao lado, em calções, com as pernas alvas esticadas e os pés descalços apoiados numa cadeira, t-shirt de alcinhas para que não ficassem dúvidas sobre a sua alvura generalizada). Mas, como não era turista, deixei-me ficar com o casaquinho de malha cinzento clarinho vestido.
Às 14.40h voltei a pé para o local onde me iam buscar para me levarem ao aeroporto. Cruzei-me com gente de t-shirt, calções e chinelos, com gente de casaco comprido e botas, com gente em mangas de camisa...
Com o sol a dar-me na cara, a afastar-me do ar do mar e perdida completamente a vista da serra coberta de neve, cogitei com os botões do casaquinho de malha cinzento clarinho: decididamente o ar por aqui é mesmo muito plural! Será por isso que não há pluralidade para se gastar em mais lado nenhum?
Max, bate o pé
[embora tenha levado o "portátel" as condições da rede eram tão irritantes que mal usei a net... amanhã recomeço a matar saudades dos vossos cantinhos] :)))
14 janeiro, 2009
dia de poesia (data de formas coloridas)
Heron, P.
14, January, 1973
(1973)
TEMPO DE POESIA
Todo o tempo é de poesia.
Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia.
Todo o tempo é de poesia.
Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas que a amar se consagram.
Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.
Todo o tempo é de poesia.
Desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia.
António Gedeão, movimento perpétuo (obra completa, 103-104)
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duetos de olhar e ler,
Patrick Heron,
poesia,
tempo
25 junho, 2008
Lili (êta, vou tchi contá...)
QUADRILHA
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou-se com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
Carlos Drummond de Andrade, antologia poética, 80

Ross, G.
surprise
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou-se com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
Carlos Drummond de Andrade, antologia poética, 80

Ross, G.
surprise
22 maio, 2008
confidentes magnólias

Townsend, J. K.
the trees have ears
A MAGNÓLIA
A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu resplendor.
Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora -
necessária,e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu resplendor.
Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora -
necessária,e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,
desfolhando relâmpagos
sobre mim.
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