13 junho, 2008

carta com ameixas e cerejas

V
Um amigo é às vezes o deserto,
outras a água.
Desprende-te do ínfimo rumor
de agosto; nem sempre

um corpo é o lugar de furtiva
luz despida, de carregados
limoeiros de pássaros
e o verão nos cabelos;

é na escura folhagem do sono
que brilha
a pele molhada,
a difícil floração da língua.

O real é a palavra.

Eugénio de Andrade, V, Branco no Branco, 15

Manet, É-
illustrated letter to Albert Hecht, with a Still Life of Plums and Cherries
(1880)

5 comentários:

Anónimo disse...

O real, na sua multivocidade, sempre o real -- é o que conta...
;))
Zé-Carlos

OUTONO disse...

Carta fabulosa...

Com aromas de fruta.

Gostei.

Duarte disse...

Estás a acertar plenamente.
Gosto e tenho bastante obra dele, mas este poema não o conhecia, belo, gosto muito.

Édouard, mi preferido, o verdadeiro criador do impressionismo, único.

VEU DE MAYA disse...

Hoje a tua escolha é muito oportuna.É um poeta tão lírico e genuíno que nunca é demais lembrá-lo-Eugénio de Andrade.

Beijinhos e Bom fds

Tinta Azul disse...

:)))