27 junho, 2008

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"Durante muito tempo acreditei que a principal explicação da razão porque a história está tão cheia de atrocidades e barbárie teria de ser procurada no tédio. O tédio é um dos exclusivos do animal humano, uma intemperança zoológica como o riso ou a presciência da morte (as três juntas, passando pela linguagem, são a origem da nossa especialidade mais famosa: o pensamento). Quando as coisas correm discretamente bem, nós, humanos, aborrecemo-nos: então começamos a meter-nos com os vizinhos, ou a desejar espécies raras que só existem em terras longínquas e que para serem obtidas é preciso enfrentar mil dificuldades, ou inventamos ameaças sobrenaturais para assegurar as emoções que nos faltam. A gente que fica em casa entretida com as suas coisas raramente faz mal a alguém: o trágico da vida é que em casa a maioria das pessoas aborrece-se. E como se aborrecem, proclamam que ficar tranquilamente em casa é coisa de cobardes, de egoístas, de maus patriotas...
... A grande batalha deste mundo efectua-se entre os que desfrutam ficando em casa e os que em casa se aborrecem, pelo que sempre estão dispostos a ir para a rua. Rivarol assinalou que em caso de algazarra (revoluções, golpes de estado, perseguição de hereges e coisas assim), ganham sempre os que saem à rua e que, por isso, todos os distúrbios históricos costumam acabar mal: os sensatos que ficam por casa a ver o que se passa perdem infalivelmente, derrotados pelos chalados, pelos levianos, pelos utilizadores, pelos criminosos, isto é, pelos entediados... Com razão comenta Nietzsche: "Mais do que ser felizes, os humanos querem estar ocupados. Todo aquele que lhes proporcionar ocupação é, portanto, um benfeitor. A fuga ao aborrecimento! No Oriente a sabedoria acomoda-se ao aborrecimento, proeza que aos europeus se torna tão difícil que suspeitam que a sabedoria é impossível."
... Continuo a pensar que o aborrecimento é ingrediente fundamental das desventuras históricas, mas agora vou dar cada vez mais importância à estupidez.
... o professor italiano [Carlo Cipola] diz que os evidentes e numerosos males que nos afligem têm como causa a actividade incessante do clã formado pelos maiores conspiradores espontâneos contra a felicidade humana: a saber, os estúpidos. Nada de confundir os estúpidos com os tontos, com as pessoas de poucas luzes intelectuais...."
Fernando Savater, O meu dicionário filosófico, 136-137 (excertos)

imagem: Park, J., le silence 45 (1994)

by the way
-tinha-me perdido deste texto, com o desvario em que trago os meus livros.
-já o quis colocar aqui a propósito de vários "acontecidos" aí pelo país e pelo mundo.
-hoje coloquei-o porque o encontrei. mainada!

3 comentários:

O natural de Barrô disse...

Excelente motivo de reflexão. Tens que ler também " O direito à preguiça ", do Paul Lafargue

um Ar de disse...

Parece-me que tédio e preguiça não serão bem a mesma coisa...
Pessoalmente, experimento mais a primeira do que a segunda, mas, por falta de oportunidade, apenas, porque sabe muito bem!
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O tédio é perigoso, de facto. Leva-nos a agir [mesmo dentro de casa] de formas estranhas.
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Já não sei qual era o estadista que dizia, que os homens, de quando em vez, precisavam de uma boa guerra, para desanuviarem o espírito [ou seria a testosterona?].
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Palpita-me que era inglês e da época vitoriana...
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Apesar de ser um dos ingredientes da "composição" da espécie humana, parece toldar os outros...
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E as guerras, também já não são o que eram!... Talvez os motivos, ainda se lhe assemelhem, com outros contornos.
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Agora, as mulheres também fazem parte dos contingentes [não sei se será grande "conquista", mas é um facto]!
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E talvez, vendo bem, enquanto os homens sempre guerrearam, dá para perguntar quem é que sentiria mais tédio? [Não me estou a ver a fazer de Penélope, tecendo e desfazendo, embora estivesse ocupada, enquanto o Ulisses resolvia o seu imenso tédio em aventuras que fizeram História!...].
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Se as feministas não tivessem saído à rua...
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Se...
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Quanto aos estúpidos, chegam a deputados e a ministros. É bom de ver os estragos da estupidez!... Concordo que é uma das maiores ameaças [e organizados, que eles são!...], pelo que, é de ter cuidado! E não se aborrecem, não padecem de tédio [esses, sim, preguiçam bastante...].
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Por isso,
[Beijo de abaixo-assinado]

Pulsante disse...

Eu que não sou intelectual sempre achei que o mal do mundo não era o tédio mas sim o facto de haver excessivas barrigas vazias e muito poucas barrigas cheias.
Se calhar é por isso (pela minha míngua intelectual, pouco atreita a letrinhas delicodoces e a banalidades falsas abarrocadas, mas susceptíveis de venderem muito) que acho que o Savater, o Alberoni e o Paulo Coelho não servem para mim (tudo farinha fina do mesmo saco)...mas eu sou um bruto, está claro.