25 janeiro, 2008

...eloquência...








quem ontem, ao fim da tarde, me enviou uma mensagem que incluia estas imagens percebe mais de pessoas do que um tratado de anagogia humana com 12 Tomos e 54 anexos...

uns falam falam falam mas não os vejo fazer nada
outros falam falam falam e fazem o que lhes convém
outros falam falam falam e chegada a hora fazem (quase) como os outros... só alargam um pouco o espaço da conveniência
outros calam e fazem-na pela calada
outros calam e falam e calam e às vezes falam mas são comovedoramente humanos na sua imperfeição

outros são diferentes ... ainda há pessoas estruturalmente diferentes. ..é preciso estimá-las... protegê-las... são uma espécie em vias de extinção?

Eusébio (take 2)


(Declaração de interesses: Não sou benfiquista nem especial adepta de futebol. Gosto de desporto por motivos que não se esgotam no espectáculo de profissionais).

O Eusébio faz hoje anos

Em 1990 eu estudava fora do país. Num tempo em que Portugal contava ainda menos, nos países da "Europa". Num Sábado, esperava alguém que me ia buscar à residência de estudantes, para passar o fim de semana fora. Para facilitar desci do meu apartamento e esperei no átrio. Nesse átrio "morava" um "mendigo" que, recorrentemente, fugia à segurança social para se albergar naquele espaço quente onde o convívio com os estudantes que ocupavam os 25 andares do prédio lhe permitia (sobre)viver. Era um homem gasto e permanentemente ébrio. Saído do seu torpor interpelou-me quanto à minha nacionalidade. Para evitar conversa (eu mal entendia o que ele dizia) respondi-lhe que adivinhasse. Ele levou a sério e foi dizendo...i taliana, espanhola, turca, grega, iraniana, jugoslava, francesa,...Às tantas, o meu metro e sessenta e pouco, moreno, cabelos e olhos castanhos, já dava para ser holandesa, sueca e sei lá que mais. Portuguesa? Nada... De repente, dei comigo quase furiosa. A minha vontade de o entreter com o exercício de adivinhação, foi completamente virada do avesso, por um assomo de "patriotismo" que nem eu mesma sabia que tinha e que, convenhamos, naquela circunstância era completamente inútil. Segura de mim, disse bem alto: SOU PORTUGUESA, DE PORTUGAL! Sabe?
Soergueu-se um pouco da cadeira de baloiço onde pernoitava e passava os dias a beber cerveja e ronronou absorto...Ah! Benfica, Eusébio...

(repetição revista do post de 25 de Janeiro de 2007)

24 janeiro, 2008

exo e endo cansaço


cansada,
cansa da
cansada!

contrição

"Citações. Não me refiro aos rendez-vous, mas àquelas poucas linhas alheias que são incluídas com este ou com aquele propósito no próprio texto. Citar é uma arte, manchada pela proliferação de incompetentes e pedantes.
...Porquê citar? Há duas razões: a modéstia e o orgulho. Cita-se por modéstia, reconhecendo que a certeza que se compartilha tem origem alheia e que se chegou depois. Cita-se por orgulho, já que é mais digno e mais cortês como disse Borges (perdoar-me-ão a citação?), termos orgulho das páginas que lemos do que das que escrevemos. Do mesmo modo que o viajante fala do que viu nas suas andanças, ...que o caminhante junta as flores que encontrou num ramalhete e o oferece à pessoa querida, citar é outra forma de dizer "não vivi em vão" (neste caso "não li em vão") e também "estava a pensar em ti". Nada disto tem a ver com o afã da erudição pois erudição não é mais que o pó que cai de uma biblioteca nun crâneo vazio, segundo o lapidar ditame de Ambrose Bierce no seu dicionário do Diabo (santo céu, mais uma citação)."...

Excertos da entrada "Citações" - Dicionário de Filosofia de Fernando Savater, Publicações D. Quixote, 65-66

peço palavras emprestadas quando:
sei que já disseram muito melhor o que quero dizer...
sei que já disseram melhor o que sinto e não sei dizer
gosto do que li e quero partilhar

tomem, então, as minhas longas citações como ramos de flores ... (só espero que ninguém tenha alergias rsrsrs)

imagem de cima: em:http://blackseyr.files.wordpress.com/2007/08/livros_logo.jpg
imagem de baixo: Picasso, Flores e Mãos

19 janeiro, 2008

... recordação actual do trabalho dos tremores ...

"Coimbra, 28 de Fevereiro de 1969 - Violento tremor de terra, que segui calmamente deitado, à espera que me caísse o tecto da casa em cima. Talvez porque a agressão era impessoal, gratuita, irresponsável, apoderou-se de mim um sentimento de razão total, de inocência total, de indiferença total pelo que pudesse acontecer. Ficou apenas a curiosidade a observar o fenómeno. Ou então foi a certeza de que, se as coisas chegassem às do cabo, a hecatombe seria geral. Tão verdadeiro é em nós o apelo da manada, que até a morte em comum deixa de nos aterrar". Miguel Torga, Diário XI, 37-38.

Nota
(Literalmente )
Recordo-me bem deste sismo. Era miúda. Acordei rapidamente com a cama a fazer de berço de embalar turbo e pensei ensonada e também muito depressa: "é um tremor de terra". Virei-me para o outro lado ajudada pela noção clara de que não podia fazer nada e readormeci. Assim...


Bitaites actuais e símiles
1) nem todos os sismos institucionais dão "cismas" esclarecedores ... olhó último parágrafo do Torga.
2) ainda assim, só assistir, pode ser uma forma poupadinha de resistência e resguardo do apelo da manada...
3) afinal, apesar de alguns rodriguinhos (é a vida!) ainda deduzo alguma coisinha de forma prática ... contextualizo ... "pragmatizo-me"... (é diferente de me render)...
4) cismar nisto é preciso ... (cismar sim, porque estou apreensiva) para clarificar ... para perceber papéis... para não andar aos papéis existenciais... para "encaixar" conjunturas onde existimos na estrutura do que somos... encontrar algum sentido para as (re)acções...
5) sem ensimesmar. ah! e a mesmice não convém. a nada.

imagem: Dalvador Dali - relógio (?)


18 janeiro, 2008

...associações óbvias...recursos de sonho...

Adivinha

Sou gigante e gigantão,
maior e muito mais alto,
que os outros que estão no chão
chamem os outros por mim
de longe, com aflição,
e em vez de dizer que sim.
aceno a dizer que não.

in Adivinhas Populares Portuguesas, de Viale Moutinho, ed. Notícias, 94

imagem: D. Quixote e Sancho Pança de P. Picasso



Resposta: Moinho de Vento

17 janeiro, 2008

labor improdutivo

clicar na imagem para "visualizar"!

Nem sempre a perseverança é virtuosa
Nem sempre o esforço é interessante
Convém definir o para quê?
Ainda que os porquês sejam difíceis
E os comos estejam demasiado à mão.

16 janeiro, 2008

liberdade inicial






liberdaaaaaaaaaaadeeeeeee

coisitas e bocejos

"Anunciam os sociólogos o advento próximo de uma humanidade sem alma, de superfície, fútil, a viver despreocupadamente o quotidiano, feliz, liberta de inquietações de qualquer ordem, políticas, morais, religiosas ou cívicas. Cada qual contente da sua condição singular, alheio ao poder, à autoridade, aos problemas do mundo. E fico-me a pensar no que será o amanhecer desse feriado egotista no longo calendário agitado do tempo. É que pergunto a mim mesmo se, depois dele, os pesadelos que agora nos afligem não voltarão redobrados. Quanto mais profundamente se dorme, mais estremunhado se acorda com a realidade. Ninguém vive indefenidamente entre parêntesis." Miguel Torga, Diário XV, 95 (sublinhado meu).

(Nota pessoal)
realmente este diário (XV) do Miguel Torga, que me fez companhia quando eu estava fora do país em 1990 (e, por opção não tinha nada para ler em português, a não ser o Expresso do fim de semana em que viajei, e que nunca consegui deitar fora, e que reli tantas vezes que quase sabia de cor os anúncios*) tem um lugar muito especial na minha vida. bebi as suas palavras de um modo tão intenso que além de (quase) o decorar, continua, ainda hoje, a ser um amparo, um refúgio e uma ajuda preciosa para eu enquadrar e expressar o que muitas vezes sinto e entendo mas ainda não sei dizer. bem aventurados os meus queridos M. e C. que, sabedores do meu gosto pelo Miguel Torga, mo mandaram pelo correio, mal ele foi publicado.
* isto sim, são saudades


Bitaites:
1) hoje em dia tenho mais em conta a pedagogia da alegria e não só a pedagogia da dor. mas... isso não significa que seja adepta do processo de alienação. se é necessário doer que doa. o que é preciso é que a dor não se torne num lema de vida, mas num instrumento de crescimento.
2) meter a cabeça na areia é para quem tem vistas curtas e só consegue ver a curtíssimo prazo. nem momentaneamente se justifica. quando se quer ganhar fôlego não se vai para um lugar onde falta o ar.
3)as pessoas e as instituições que assobiam para o ar e tentam "resolver" os desafios que lhe são colocados de forma preguiçosa e, obviamente, de forma atabalhoada, prestam um mau serviço a toda a gente e a si próprios. condenam-se, mais tarde ou mais cedo.
4) ora, uma das definições de estupidez passa por isto: pessoas estúpidas e, por analogia, instituições estúpidas são as que tomam decisões e realizam acções cujas consequências são más para todos... para si próprios (pessoa ou instituições) e para os outros.
5) e assim, pessoas e instituições passam a ser anãs que, energicamente, bocejam.

15 janeiro, 2008

de pequenino se torce o destino (sem me esquecer que o Sérgio Godinho tem um album com este título)

ao cuidado de quem decide sobre o currículo das nossas crianças e jovens nas escolas portuguesas, na convicção de que convém ao ser humano (ómem com ó grande, como diria o inefável João Pinto ex-jogador de futebol do FCP) que todas as expressões sejam expressamente trabalhadas...expressões...corporal, plástica, musical ... e, se possível, de um modo integrado.
é um mero, simples, e muito pititi contributo deste post.


imagem: "composição" com um desenho infantil (jogo das bolas) e Círculo (dança) da Amizade de Picasso


14 janeiro, 2008

pragmatismo ... mainada! (sabedoria pop)



eu cortei o pinheirinho
eu cortei-o está cortado
eu deixei o meu amor
eu deixei-o está deixado!

(quadra popular)





imagem em: handcraftebyguapa.blogspot.com

13 janeiro, 2008

todo, tudo, em tudo...ao luar de janeiro

[PARA SER GRANDE, SÊ INTEIRO: NADA]

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Fernando Pessoa/ Ricardo Reis

imagem: Homem do Vitrúvio . desenho de Leonardo Da Vinci.

se até o Kafka diz...


"Se caminhasses por uma planície, te esforçasses por avançar e, no entanto, os teus passos te levassem para trás, seria desesperante; mas como tu sobes uma ladeira íngreme, tão íngreme como tu próprio visto de baixo, os passos para trás só podem ser causados pela natureza do terreno, e não deves desesperar." F. Kafka, Aforismos, Ed. Ulmeiro, 10


"bitaites"
1) nos dias do senhor dá-me sempre assim um amok tipo sei lá...introspectivo a que nem o Kafka escapa. hoje é tudo ampliado com este tempo atmosférico de muita chuva no cabelo e ar cinzento no olhar. e acrescido pelo recolhimento aconselhado que me impele ainda mais para dentro.
2) mas... outro dos meus amoks não se fica e ...espreita e...arranja uma edelweiss ...

12 janeiro, 2008

... a objectiva física ...


Só numa quantidade reduzida, com condições e parâmetros como o nosso universo, será possível o desenvolvimento de vida inteligente, que porá a questão: "Porque é o universo como o observamos?" A resposta é, obviamente, que, se fosse diferente, não haveria ninguém para colocar a questão.
Stephen Hawking in O Fim da Física, ed. Gradiva, 60

imagem: Pablo Picasso, Estudo para Yuri Gagarin


cinegética

Um caçador
perdeu a cedilha
e por isso
sua mulher
nunca mais
quis ir à caça
com ele
sem cedilha

Mário Henrique Leiria in "Contos do Gin Tónico", Ed. Estampa, 77

Ç (C de cedilha)


11 janeiro, 2008

este post tem tudo a ver com o anterior... e a leveza do "concreto" também ajuda a colocar as questões

Havia um Tarzan
chamado Johnny
andava de tanga
e gritava Oíóôí

Vivia na selva
de lianas pendentes
e tinha uma macaca
velhinha sem dentes

Matava o Tarzan
cobras e panteras,
hienas, leopardos
e mais outras feras

Um dia do céu
caiu um aeroplano
de tela e madeira
e fuselagem em cano

Dentro dele seguia
formosa donzela
nívea e delicada
vestida de caqui

Seu nome era Jane
menina prendada
que Tarzan amou
de forma elevada

Aprendeu a ler
escrever e contar
e os modos distintos
de quem sabe estar

Divertiam-se muito
e eram felizes
tinham bichos amigos,
mas não geraram petizes

Então o produtor
para mais feliz fim
levou-os a Hollywood
para um grande festim

Jane veio a apaixonar-se
por um galã malvado
deixando Weissmuller
assaz desamparado

De fato completo,
e pasta na mão
Jonhy foi para a selva
mas a de aço e betão

Não tinha elefantes,
lianas e anões
mas tinha sujeitos
mais maus que leões

De Jane se soube
que teve uma filha
E que Tarzan louco,
acabou aos berros,
em longínqua ilha

Jorge Avidal in Instantes, Lugares Evasões, Ed Campo das Letras, 62/64




10 janeiro, 2008

mais uma vez, e outra e sempre

"Que haja diferentes modos, estilos ou formas de vida, o leitor estará sem dúvida de acordo. Pois bem, Aristóteles distingue três tipos: a vida voluptuosa, a vida política e a teorética. Os que escolhem a primeira órbita identificam a felicidade com o prazer. Aristóteles não se mostra condescendente com eles. "Os homens vulgares mostram-se completamente servis ao preferirem uma vida de animais". Desde Platão até Bertrand Russel que se repete a metáfora: "O porco deseja uma felicidade de porco." John Stuart Mill modificou um pouco a frase: "Prefiro ser um homem desgraçado do que um porco feliz". Aristóteles expõe um problema de grande envergadura, que já mencionei ao tratar os níveis de evidência. Em cada nível as evidências são irrefutáveis. O que é refutável é o nível. Para quem escolhe, como diz Aristóteles, a vida voluptuosa, falar-lhe de outro tipo de satisfação é quimérico. "...

José Antonio Marina in Ética para Náufragos Ed. Caminho 172/173

"Bitaite"

e no tempo deles não havia pipipis de quartzo, nem malas de fechos cromados, nem gps's para chegar ao topo, nem gurus da eficácia, nem mezinhas da comunicação...

08 janeiro, 2008

não, não é...

Não, não é cansaço

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento, um feriado passado num abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta -
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...

Como quê?
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola de outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...

Fernando Pessoa in Poemas de Álvaro de Campos, Ed. Imprensa nacional - Casa da Moeda, 287-288

imagem em: oz.stephan-brumme.com

poetura & pinesia 2

CARNAVAL DE ARLEQUIM (Miró)

Descobri que a vida é bailarina
e que nenhum ponto inerte
anula o viravoltear das coisas.

Carlos Drummond de Andrade in Farewell, Ed. Campo das Letras, 33.


07 janeiro, 2008

poetura & pinesia




SAPATOS (Van Gogh)

Cansaram-se de caminhar
ou o caminho se cansou?


Carlos Drummnond de Andrade, in Farewell, Ed. Campo das Letras, p.33


imagens: http://www.vangoghgallery.com/catalog/Painting/

06 janeiro, 2008

Luiz Pacheco: morreu, no hospital do Montijo, aos 82 anos

"Chamo-me Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco, ou só Luís Pacheco, se preferem. Tenho trinta e sete anos, casado, lisboeta, português. Estou na cama de uma camarata, a seis paus a dormida. É asseado, mas não recebo visitas. Também não me apetece fazer visitas. A Ninguém. Estou bastante só. Perdi muito. Perdi quase tudo.
Perdi mãe e perdi pai, que estão no cemitério de Bucelas. Perdi três filhos - a Maria Luísa, o João Miguel, o Fernando António -, que estão vivos mas me desprezam (e eu dou-lhes razão). Perdi amigos. Perdi Lisboa; a mulher, a Amada, nunca mais a vi. Perdi os meus livros todos! Perdi muito tempo, já. Se querem saber mais, perdi o gosto da virilidade; se querem saber tudo, perdi a honra. Roubei. Sou o que se chama, na mais profunda baixeza da palavra, um desgraçado. Sou e sei que sou.
Mas, alto lá! sou um tipo livre, intensamente livre, livre até ser libertino (que é uma forma real e corporal de liberdade), livre até à abjecção, que é o resultado de querer ser livre em português.
Até aos trinta e sete anos, até há bem pouco tempo ainda, portanto, julguei que podia, era possível, ser livre salvar-me sozinho, no meio de gente que perdeu a força de ser (livre e sozinha), e já não quer (ou mui pouca quer) salvar-se de maneira nenhuma. Julgava isto, creiam, e joguei-me todo e joguei tudo nisto. Enganava-me. Estou arrependido. Fui duro, fui cruel, fui audaz, fui desumano. Fui pior, porque fui (muitas vezes) injusto e nem sei bem ao certo quando o fui. Fui, o que vulgarmente se chama um tipo bera, um sacana. Não peço que me perdoem. Não quero que me perdoem. Não quero que me perdoem nada. Aconteceu assim.
Eu para mim já não quero nada, não desejo nada. Tenho tido quase tudo que tenho querido, lutei para isso (talvez o merecesse). Agora já não quero nada, nada. Já tudo, tanto me faz; tanto faz.
Agora oiçam: tenho dois filhos pequenos .... "

Luiz Pacheco in Exercícios de Estilo , Ed. Estampa, pp.161/162

"bitaites" :
1) tenho dificuldade em compreender alguns exageros. por uma razão simples. coloco-me sempre a pergunta: e se todos fizessemos/fossemos assim? (temos
todos o mesmo direito, ou não?).
2) outra dificuldade: entender a liberdade sem o "outro". a tal liberdade desabitada.
3) neo-abjeccionistas há muitos. manifestam-se de formas diversas (mas nada sinceras como a da declaração apresentada), uns mais rebuscados, outros declaradamente xicos-espertos, outros, inexplicavelmente(?!), muito burros!


ah! as gralhas


O ATRO ABISMO

Quando o poeta escreveu: "...o atro abismo",
Umas vírgulas por ele mal dispostas,
Irritadas gritaram: "É estrabismo!".

Mas um ponto que viveu no dicionário,
De admiração caíu de costas
E abismado seguiu o seu destino...


Alexandre O'Neill, in Poesias Completas, Ed. Imprensa nacional - casa da Moeda p.95


Fotografia "sacada" em: http://images.google.pt/imgres?imgurl=http://3.bp.blogspot.com/

03 janeiro, 2008

nota muito pessoal

...estou mais tranquila...



02 janeiro, 2008

nasceu uma estrela


no passado dia 28 de Janeiro.
nasceu o A.
parabéns à mamã J. ao papá A. ao irmão A. e... ora bem, à babadíssima avó O.

é o futuro a preparar-se!

boas entradas ou... entradas há muitas ...



" _ Eu entrei na pintura por emoção. A primeira vez que vi o sol desaparecer no mar, a impressão que isso me fez! Era ainda muito pequena, tão pequena que nem sabia que aquilo era o pôr do Sol, mas fiquei com aquela recordação..."

in Conversas com Sara Afonso, de MJAN, Ed. D. Quixote



01 janeiro, 2008

e que cada um faça o melhor que puder em 2008




"composições" (!!!!!) feitas por moi même

31 dezembro, 2007

mais palavras emprestadas a pensar no meu amigo Jú


"Coimbra, 16 de Abril de 1991 - Varri-o do meu caminho. Ultimamente tem sido uma razia
. E acabarei como comecei. Na companhia e na amizade dos simples, que não sabem mentir, ou mentem inocentemente. Em vésperas de partir não quero mais equívocos....Que nenhuma confusão possa sujar a minha." (alma)

Miguel Torga, DiárioXVI, p.73

mosquitos por cordas?



quem tem bancos tem cadilhes
tem-nos quem os não tiver

quem tem bancos tem atilhos
mesmo depois de "morrer".

quem tem acções tem sentido
p'ra onde lançar o dardo
e meter bem o partido.
e tirar como o berardo

sou ignorante q.b.
em economia e finança

mas no caso o que se vê
é a basta maningância

que em tempo de frio salta
e estoira em clima franco
não por usar gola alta
mas sim colarinho branco!

e às tantas vale tudo
que eu disto nada sei
e ó'pois vão num canudo
as "bocas" que aqui dei.

ano bom




um ano cheiinho de coisas boas

30 dezembro, 2007

acontecido

Não cultivo os balanços. Fico tonta, ourada como se diz no sul. Contudo, sugestionada pela leitura do jornal, dei comigo a pensar qual seria, para mim, o acontecimento caseiro do ano que agora acaba. Normalmente hesitante em relação a (quase) tudo, auto-surpreendi-me com a certeza rápida da escolha.
Em boa verdade, o acontecimento do ano, para mim, foi a condenação de um fulano e de uma sicrana, de uma instituição universitária, a pena de prisão por ABUSO DE PODER. Bem sei que é uma gotícola de água no mar de abusos, prepotências, aproveitamentos, corrupções e ... que grassam por este país. Mas, sem gotas não há copos que transbordem. E, já era tempo destes (des)temperos não serem só reconhecidos nos autarcas e nos presidentes dos clubes de futebol. Eu sei que é simbólico mas, ainda assim, muito importante, porquanto, a persistir esta mentalidade e este sentido de impunidade em Portugal, não há sabonária nem barrela que nos tornem definitivamente num país civilizado e culto. Nem que as sabonárias e as barrelas sejam presidências europeias catitas e cimeiras europóqualquer coisa muito pragmáticas.

29 dezembro, 2007

palavras emprestadas

"Coimbra, 16 de Novembro de 1990 - Mudei. Até aqui, combatia com as armas erradas e cegas do instinto, da paixão e do sentimento. E perdia sempre. Agora, menos impulsivo, perco na mesma, mas as derrotas doem-me menos. Escudo-me na indiferença. Não pactuo, nem quero atraiçoar a minha vida. Luto ainda denodadamente, é certo. O objectivo, porém, não é vencer em plano algum, nem responder a ninguém. É sair do mundo com brio e lucidez".

Miguel Torga, Diário XVI, p.38

Aí está. Como diria o Odorico Paraguassu "talqualmente" eu sinto. E, assim sentindo, recordo uma outra frase, escrita noutro diário e que me cai, também, como sopa no mel... Vou procurar ...

Achei.!!!..

"Chaves 4 de Setembro de 1988 - Dava tudo para que me compreendessem. Mas já me contento quando me respeitam." (M. Torga, Diário XV, p.131)

28 dezembro, 2007

corda bamba




"O verdadeiro caminho passa por uma corda esticada não em altura, mas um pouco acima do solo. Parece destinada a fazer tropeçar, não a ser ultrapassada."

(F. Kafka)

27 dezembro, 2007

faculdades dos feijões


Almada Negreiros numa imagem feliz falava de uma mesa cheia de feijões e esclarecia o gesto de os juntar num montão único e o gesto de os separar, um por um, do dito montão. Também considerava bem mais simples e a exigir menos tempo o primeiro gesto.
Falando de território (em vez de mesa) e de pessoas (em vez de feijões), o trabalho de juntar todas as pessoas num montão único é menos complicado do que o de personalizar cada uma delas. Ainda continuando com A.N. o primeiro gesto de reunir, aunar, tornar uno, todas as pessoas de um mesmo território é o processo de civilização. O segundo gesto, o de personalizar cada ser que pertence a uma civilização é o processo da cultura. Percebo com A.N. que é mais difícil a passagem de civilização para cultura do que a formação da civilização. A civilização é um fenómeno colectivo. A cultura é um fenómeno individual. Não há cultura sem civilização, nem civilização que perdure sem cultura. A.N. acrescenta: Justaposição disto mesmo a Portugal: uma civilização sem cultura. As excepções, inclusive as geniais, não fazem senão confirmá-lo.

Pois! E eu ao escrever isto só me apetecia trocar território por F.....
Decerto dou valor a quem "civilizou" as barracas iniciais. O problema está em que só se apostou verdadeiramente na ideia de "ajuntar" e nunca se passou à valorização das virtualidades de cada um, aceitando verdadeiramente o contributo das diferenças. Conclusão: com o argumento definitivo de estarmos sempre juntos, nunca mais se admitiu que deveríamos ficar juntos exactamente por sermos diferentes e os que foram ficando mais juntos e mais rapidamente colados são exactamente os mais iguais.

Feijões ao monte e fé em Dios


faria hoje anos

as saudades permanecem

22 dezembro, 2007

consoada

o natal é quando um homem ou uma mulher quiserem e hoje era só véspera de um dia 23 mas porque foi muito bom o jantar eu acho que este ano já tenho a minha consoada e portanto não me vou lamentar mais por ser Natal e eu não gostar deste tempo se bem que do tempo eu não gosto mesmo mas como gosto muito das pessoas fico feliz se estou bem com elas e hoje estive e rimo-nos muito e recordamos ainda mais e os "miúdos" já graúdos são mesmo muito amigos e o que fica da vida é isso e o resto são quase só palermices ...

18 dezembro, 2007

Faz hoje um ano

Que aqui coloquei o post "carolina académica"! (18 de dezembro de 2006)

Ontem a carolina académica e o seu presidente foram condenados "ambos os dois".

Yessssssssssssssssssssssssssssssss

A ver vamos se existe epílogo!!!

17 dezembro, 2007

Eu não sou um(a) Calimero


Não aconteceu tudo o que devia ter acontecido, mas aconteceu alguma coisa do que era urgente que acontecesse. Assim comece a acontecer em todos os campos da vida do país.

Já agora era só autarcas e dirigentes de futebol....

(estou vazia.... só quis registar....)


16 dezembro, 2007

E porque hoje é dia do senhor


Admito. A conversa por aqui anda chata e pesada. Mas, desde que iniciei "isto", sempre soube que escreveria o que me "saísse". Se eu não ando fresca e airosa, a prosa parida não lhe pode ficar muito distante.
Domingo de manhã. Arrumações muito básicas feitas, mexo ao acaso nos "meus livros". Saquei da estante o Vol.V (Ensaios) da Obras completas do Almada Negreiros. Admito que retirei este um pouco a pensar na minha querida Tinta Azul tão entusiasmada com o seu lado artístico. Abro e.... logo naquela 1ª página em branco que (quase) todos os livros têm antes de começarem propriamente, dou de caras com a minha letra a lápis! (Sim, eu escrevo, rabisco, sublinho os livros).

Vejo a data da minha "escritura": Domingo, 27/8 /1995 e leio admirada

13h

É preciso comer para viver
Tudo em nós requer alimentação
A cabeça o estômago, o coração
Peitos fortes, pernas boas para ver

Hoje para dar corpo à função
Vou fazer uns filetes de salmão
Cor bonita, aparência apaladada
P' ra degustar juntamente com salada.


Assim, sem um rabisco ou correcção.... Só me pude rir.... e ficar satisfeita porque naquele dia a minha vontade de fazer o almoço deveria ser tanta ... E o Almada que me perdoe ficar para depois.

15 dezembro, 2007

"espírito natalino"

A minha falta de identificação com este "período natalício" já se manifesta. Cada ano piora. Concordo que há exageros a evitar, mas DETESTO este tempo. De tal modo que me parece justificar-se eu pensar seriamente porque é que este tempo me magoa tanto.


(depois do comentário feito por MNN)

A minha falta de identificação com este "período natalício" já se manifesta. Cada ano piora. Concordo que há exageros a evitar, mas DETESTO este tempo. Irrita-me, ponto!





Sem saída?

"... Esta minha vida de agora é circular e eu sufoco, sem dela poder sair, com o deus que lá existe, com Deus, com Deus...Comboios que não páram de ranger e apitar. Comboios que partem. Durante a noite acordo muitas vezes com Deus a apitar. Mas de manhã a a minha falta de fé parece ainda maior e compreendo que nunca hei-de sair deste quarto e que os comboios são simples pensamentos, como Antuérpia, uma inspiração difusa, confusa."

in "Os passos em volta" de Herberto Helder pp.49

13 dezembro, 2007

Amizade

Nesta altura do ano em que (quase) tudo me deprime, com especial relevância para os dlinsdlinsdlins tocados à exaustão em qualquer raio de lugar em que entremos, ou mesmo na rua, começa a ser um lugar comum eu dizer:
Ah se eu pudesse, sumia-me pelo menos a partir do dia 20 de Dezembro e só voltava depois do dia de reis (6 de Janeiro). Não é ainda possível. Mas estou segura de que um dia vai acontecer. Piro-me mesmo sozinha! Nem que tenha que apelar para aquele tipo de circunstância que justifica um certo "destravamento" das pessoas mais idosas.

O livro de que retiro este excerto " A Amizade" ajudou-me muito, há uns anos atrás, quando, já com idade suficiente para ter juízo, mas também com ingenuidade bastante para distribuir num infantário ,tive necessidade de esclarecer o mais possível
interiormente a questão da amizade.

Aí vai o que Voltaire disse:
" A amizade é um contrato tácito entre duas pessosa sensíveis e virtuosas. Digo "sensíveis" porque um monge, um solitário, pode ser uma pessoa de bem e viver sem conhecer a amizade. Digo "virtuosas" porque os maus tem apenas cúmplices, os divertidos companheiros de paródia, os cúpidos sócios, os políticos juntam em redor os partidários, os que se metem na vida dos outros têm relações, os príncipes cortesãos, mas apenas os homens virtuosos têm amigos. Cetego era cúmplice de Catilina, e Mecenato cortesão de Octávio; mas Cícero era amigo de Aristóteles".

O facto de a amizade ter uma componente ética forte torna verdadeira a afirmação "diz-me com quem andas dir-te-ei quem és".

Os amigos são o retrato objectivo da ética da pesoa. Eles indicam o seu rigor, a sua intransigência, mas também o seu amor pela inteligência, a sua criatividade e finalmente a sua tolerância.

Eu tenho um bom punhado de amigos! Sou mesmo uma sortuda.

30 novembro, 2007

Visualizar Fedorento?

Não importam agora as circunstâncias. Por motivos de trabalho, utilizei um documentário como meio de ensino, do qual pedi um relatório com ítens previamente definidos, deixando à criatividade dos relatores a organização e a forma de abordagem. Pois bem! Numa boa parte dos ditos cujos aparece recorrentemente o verbo "vizualizar". "Vizualizamos o filme", "da visualização do filme". Não é que esteja mal de todo, mas .... pensei, pensei e concluí que só pode ser um efeito dos "Gato Fedorento". Diz que são uma espécie de jovens com dificuldade em destrinçar a ironia das palavas!!!!

29 novembro, 2007

sem título, mas com muita convicção


Consumam-se encontros de gente, de sós
De formas diferentes, ousadas ou não
Consomem-se vidas redondas de nós
E de laços que abrem a imaginação.



Há trocas nos toques de tanto olhar
Em mares de desejo, que vejo, que sinto
E há a palavra, porque encontrar
É mais que um tropeço num poço de instinto.


Nada dá sentido à mão com coragem
Ou à boca redonda com medo de abrir
Senão a certeza que é descobrir


Que a gémea palavra induz a viagem.
Capazes de ir onde a vida se abra,
Só há o limite do fim da palavra!

escrito há mais de uma dúzia de anos.

28 novembro, 2007

Lá querer eu queria


Imagine que um dia alguém se aproximava de si na rua e em vez de lhe perguntar polidamente as horas, ou aonde é que ficava a rua tal, lhe perguntava, com a maior naturalidade:
- Importa-se de me dizer se sabe pensar?
Imagine, com a maior realidade que puder, que essa pessoa lhe pedia que a ajudasse a pensar, exactamente com a mesma naturalidade com que lhe pediria lume ou troco de vinte escudos.
Imagine que lhe faziam essa pergunta assim, na rua, ou em qualquer outra circunstância, e tente avaliar pela sua surpresa ao recebê-la e pela resposta que eventualmente lhe daria, o que é que pensa a respeito da necessidade de saber pensar; se alguma vez teve dúvidas sobre se sabe ou não pensar, ou quantas vezes, e exactamente de que maneira, é que o problema se lhe pôs.
Pode achar estranho que essa pergunta lhe fosse posta assim, numa situação ocasional de rua. Seria de qualquer modo curioso saber ao certo porque é que seria estranho, e não é estranha a situação contrária, isto é, a situação real – em que nunca se lhe põe, nunca se lhe pôs, nunca se lhe porá.
Mas pode sossegadamente recolocar a mesma questão em relação aos jornais, às revistas, ao cinema, às reuniões com os seus amigos, à generalidade das universidades, à esmagadora maioria dos livros. Pode procurar activamente em todas as situações da vida ordinária – em todas as situações comuns ou invulgares da vida ordinária – qualquer ocorrência explícita dessa questão. Pode procurar activamente – mas procurará em vão.

Penso, logo desisto

Penso, logo desisto – dizia recentemente um jovem matemático. E desisto porque, obviamente não sei pensar.
Para além de um pequeno número de operações mais ou menos mecânicas; para além de uns resultados, mesmo criadores, que por vezes se conseguem, fica um mundo interminável de coisas perdidas na penumbra da incompreensão – e essas são, muito possivelmente, as mais importantes.
A Matemática ainda se compreende. A Física, a química, a generalidade das ciências ditas exactas, progridem, e em geral de uma forma surpreendente.
Mas quando se trata de compreender o homem; quando se trata de compreender a morte, a agressividade, o medo, o amor, quando se trata de nos compreendermos a nós próprios – vejo-me forçado a desistir.
Poucas pessoas terão alguma vez na vida perdido um minuto do seu sono a pôr, ou a tentar resolver, explicitamente, essa questão. Mas todas as pessoas perderam – e perdem continuamente – muito mais do que um minuto, uma hora ou uma noite inteira do seu sono, por não saberem pensar – por não quererem saber pensar.
Quero filhos, quero vodka, quero um ideal, quero uma casa no campo, quero um guru, quero um bife de lombo, quero a eternidade, quero um perfume francês – mas nunca ouvi da boca de ninguém, isto:
Quero saber pensar.
Penso, logo desisto.

Vai, disse a ave, porque as folhas estavam cheias de crianças,
Que se escondiam excitadamente escondendo o riso.
Vai, vai, vai, disse a ave: o género humano
Não pode suportar muita realidade.
João de Sousa Monteiro (1978) in “ Tire a mãe da boca” pp. 33-35

27 novembro, 2007

Não...não se deve retonar a um lugar onde se foi feliz!

16 novembro, 2007

Amanhã


AMANHÃ

Simples, para ser bom. Simples para ser eficaz. Simples para ser profundo. Simples para ser completo.

Hoje estou muito ambiciosa!!!

15 novembro, 2007




tolerância


“podemos amar a liberdade e colocá-la no topo das nossas prioridades. Mas uma liberdade desabitada será sempre a pior forma de solidão”

A propósito de “The dying Animal” de Philipe Roth



“prefiro ser um homem desgraçado do que um porco feliz”.
Stuart Mill

13 novembro, 2007

Post desconsolado

Não sei de quem chegam saudades tão simpáticas.

Pensando rapidamente (salvo, portanto, razões mais aprofundadas) acho que é o desconsolo que me impede de "postar". Se, sem me sentir desconsolada, sou suficientemente céptica quanto ao interesse do que "posto", naturalmente que, com desconsolo declarado, naturalmente nem ponho a hipótese...

A ver se a viagem da próxima semana me retempera. Depois darei notícias (eventualmente com sotaque... paradoxalmente (ou não) sou muito surda mas tenho um óptimo ouvido) ehehehehehe