19 janeiro, 2008

... recordação actual do trabalho dos tremores ...

"Coimbra, 28 de Fevereiro de 1969 - Violento tremor de terra, que segui calmamente deitado, à espera que me caísse o tecto da casa em cima. Talvez porque a agressão era impessoal, gratuita, irresponsável, apoderou-se de mim um sentimento de razão total, de inocência total, de indiferença total pelo que pudesse acontecer. Ficou apenas a curiosidade a observar o fenómeno. Ou então foi a certeza de que, se as coisas chegassem às do cabo, a hecatombe seria geral. Tão verdadeiro é em nós o apelo da manada, que até a morte em comum deixa de nos aterrar". Miguel Torga, Diário XI, 37-38.

Nota
(Literalmente )
Recordo-me bem deste sismo. Era miúda. Acordei rapidamente com a cama a fazer de berço de embalar turbo e pensei ensonada e também muito depressa: "é um tremor de terra". Virei-me para o outro lado ajudada pela noção clara de que não podia fazer nada e readormeci. Assim...


Bitaites actuais e símiles
1) nem todos os sismos institucionais dão "cismas" esclarecedores ... olhó último parágrafo do Torga.
2) ainda assim, só assistir, pode ser uma forma poupadinha de resistência e resguardo do apelo da manada...
3) afinal, apesar de alguns rodriguinhos (é a vida!) ainda deduzo alguma coisinha de forma prática ... contextualizo ... "pragmatizo-me"... (é diferente de me render)...
4) cismar nisto é preciso ... (cismar sim, porque estou apreensiva) para clarificar ... para perceber papéis... para não andar aos papéis existenciais... para "encaixar" conjunturas onde existimos na estrutura do que somos... encontrar algum sentido para as (re)acções...
5) sem ensimesmar. ah! e a mesmice não convém. a nada.

imagem: Dalvador Dali - relógio (?)


10 comentários:

herético disse...

não há grande escapatória à manada, mas enfim - cismar é preciso!...

grato pelo "se..." .

Um Ar De... disse...

As nossas idades bem que se aproximam...

Lembro-me bem do mesmo sismo, no Porto.

Três irmãos e uma prima a dormirem.
Acordei com o estardalhaço e a minha mãe a dar a "ordem de saída":
RUA! É preciso ir para um descampado [não sei ao que ela estava a referir-se... só se fosse o meio da rua.]

Quando reunimos as crianças pequenas ao colo do pai, mãe e eu, com a minha irmã ensonada a querer voltar para a cama, já à porta do prédio [vizinhança e nós, todos em pijama e robe de quarto], tudo serenou...

Pela primeira vez percebi, claramente, três coisas.

Uma, que há factos que nos ultrapassam, definitivamente.

Duas, a minha mãe não era o garante da protecção total, o que lhe retirou a autoridade incondicional [pelo menos, para mim].

Três, os meus pais tiveram demasiados filhos. Apenas por ser a mais velha, não lhes berrei isso na cara, nessa mesma noite, com o meu irmão mais novo ao colo, estarrecido de medo e muito agarrado à mana. [Acho que ele nunca soube distinguir as duas palavras - mana e mãe. Só as pessoas...]

Mas, de facto, pensei bastante nessa noite inesquecível.

Mais uma vez, com aquela idade, não esperei por um sinal divino, que nos viesse confortar. Pensei no pragmatismo patético da minha mãe... [Acho que, naquela altura, não perdeu tempo com rezas e preces e espiritualidades: há que salvar a sua ninhada. O meu pai colaborava, na sua normal atitude complacente, não sem um certo ar de aborrecimento...]

Bj de regresso.

Mariadosol disse...

herético:
oh! é só um se! :)

um ar de:
que bom ter-te de volta. obrigada pelo teu texto. bjs

um Ar de disse...

Ora, não tens que agradecer...

Estava mortinha por vir aqui!

Sabia que iria encontrar imensas novidades!

Bj

Anónimo disse...

Estamos fartos de terramotos e não me viro para o lado e continuo a dormir...exactamente o contrario levanto-me e "move....move"..por exemplo sabias q o Nosso 1ª está com ideia de aumentar os anos de reforma?????..terramoto vero!!!

Beijo:pandorabox

Mariadosol disse...

pandorabox

eu era objectiva e simples no tempo da inocência...
agora, como se vê pelos bitaites, não me viro para o lado...
mas começo a olhar tudo de lado...defesas...
bj

Anónimo disse...

O olhar muito de lado pode ocasionar torcicolos.
Daqui de tormes gosto do que vou vendo.
AAMA

Anónimo disse...

bem--inocente de inocência,,talvez não..crédula,confesso q sou(tenho por péssimo hábito tratar o OUTRO como me vejo ao espelho:sou confiável)..agora tenho por "cautela" tentar ñ errar duas vezes com o mesmo erro


Detesto "torcicolos" podem provocar "maleitas" daí a "prudência" quando não penso com o coração!!



Um abraço;pandorabox

Anónimo disse...

Opah...estás em "retiro"???

vê lá se abusas..3 dias sem postar é sorna...


Um abraço:pandorabox

herético disse...

prontessss. tirei-te do riso!

quem diria...