09 julho, 2008

conversas coma Isaura (5)


Querida Isaura:

Falas-me de coisas estranhas. Das voltas da vida. Dos enleios dos balanços que nos trocam as voltas num caminho que imaginávamos espaçoso e recto. Do futuro traçado a ponteado sem uma continuidade que queríamos coerente. Dos espaços preenchidos pelos vazios enormes dos equívocos. Da deturpação de modos de sentir. Do que ficou e não tem nada a ver connosco porque não nos permite sermos nós. De se estar de pés e mãos atados a uma vida que realizamos não como artesãos esforçados, mas como executantes de uma linha de montagem massacrados por ordens mais do que discutíveis. Da sensaboria em que tudo se torna porque nada é interessante. E de sabermos que isto é o que é, mas poderia ser de um modo muito diferente. Sentes falta de tudo? Não gosto de te ouvir dizer que sentes falta de tudo, que não tens nada além de ti e, mesmo assim, amputada do que poderias ter sido e não foste. Apesar de tanto suor! Isaura, minha querida, tens de te animar! Pega no que está nas tuas mãos e vai. Não importa para onde.
Como
sempre espero as tuas notícias.

Muitos beijos
Novembro de 2002


Edith Piaf - Miséricorde

3 comentários:

prafrente disse...

"Dos enleios dos balanços que nos trocam as voltas...
Pega no que está nas tuas mãos e vai..."

Foi tão dificil voltar a recordar aquilo que tento esquecer...nem sempre recordar é viver...

A vida é feita do ontem que foi, do hoje que é e do amanhã que será...
Prafrente é o caminho..

um Ar de disse...

Desde 2002... estas notícias com cerca de seis anos...
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Nunca soube o que responder à minha amiga I., quando me mandava notícias, assim...
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Acho que, sem querer, só porque me eram próximas as inquietações, ou porque de inquietações, também eu, tentava fugir... nunca consegui, verdadeiramente, responder como tu o fizeste.
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E... já não posso voltar atrás.
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[Beijo......]

Duarte disse...

Falas-lhe com tal convicção que vai-te fazer caso, tenho a certeza disso.