03 maio, 2009

Mães





Duoling, H.
mother & son
(2005)



AS MÃES

Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto - não sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem orfãs. Não as veremos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro, elas estão em toda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catânia, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Varchats ou Beni Mellal, porque elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivera morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse ser lavrado pelo vento. Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E como duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se participassem na natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-nos com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes encostam-se à cal dos muros a ver passar os dias, roendo uma côdea ou fazendo uns carapins para o último dos netos, as entranhas abertas nas palavras que vão trocando entre si; outras vezes caminham por quelhas e quelhas de pedra solta, batem a um postigo, pedem lume, umas pedrinhas de sal, agradecem pelas almas de quem lá têm, voltam ao calor animal da casa, aquecem um migalho de café, regam as sardinheiras, depois de varrerem o terreiro. Elas são as Mães, essas mulheres que Goethe pensa estarem fora do tempo e do espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno, assim velhas, assim terrosas, os olhos perdidos e vazios, ou vivos como brasas assopradas. Solitárias e inumeráveis, aí as tens na tua frente, graves, caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de que fazem o primeiro orvalho do homem, a primeira luz. Mas também as podes ver seguindo por lentas veredas de sombra, as pernas pouco ajudando a vontade, atrás de uma ou duas cabras, com restos de garbo na cabeça levantada, apesar das tetas mirradas. Como encontrarão descanso nos caminhos do mundo? Não há ninguém que as não tenha visto com umas contas nas mãos engelhadas rezando pelos seus defuntos, rogando pragas a uma vizinha que plantou à roda do curral mais três pés de couve do que ela, regressando da fonte amaldiçoando os anos que já não podem com o cântaro, ou debaixo de uma oliveira roubando alguma azeitona para retalhar. E cheiram a migas de alho, a ranço, aguardente, mas também a poejos colhidos nas represas, a manjerico quando é pelo S. João. E aos domingos lavam a cara, e mudam de roupa, e vão buscar à arca um lenço de seda preta, que também põem nos enterros. E vede como, ao abrir, a arca cheira a alfazema! Algumas ainda cuidam das sécias que levam aos cemitérios ou vendem pelas termas, juntamente com um punhado de maçãs amadurecidas no aroma dos fenos. E conheço uma que passa as horas vigiando as traquinices de um garoto que tem na testa uma estrelinha de cabrito montês - e que só ela vê, só ela vê.
Elas são as Mães, ignorantes da morte mas certas da sua ressurreição.
17.8.85
Eugénio de Andrade, vertentes do olhar, 44-47


Kathleene Butler, ave Maria (Bach/Gounod)

18 comentários:

WOLKENGEDANKEN disse...

Belissimo texto, muito atmosferico. Mas a mim, muito, muito pessoalmente esta imagem de mulher existindo só na sua funciao de mae, sem nenhuma caracteristica individual revolta-me.As maes nao tem direito a ideias, sonhos, planes, projectos que nao sejam forcosamente relacionados com a sua condicao de mae ?!

um bom Domingo, amiga

anamar disse...

Belo texto mdsol!
Bom domingo...
passarei o meu esperando pelo filho e pela mãe, logo será a noite mãe...e a noite filha...
coisas que o destino tece!
:.)))

Anónimo disse...

um bj para a mãe.
cs

Duarte disse...

Fantástico!!!
Só uma cabeça como a do Eugenio podia pensar em algo tão real, tão belo, tão sensato, tão autentico, e só uma pessoa como tu, com essa sensibilidade sempre tão à flor da pele, a podia seleccionar para incorporar aqui, num dia como o de hoje.
Tu, que es mãe, também mereces a minha felicitação.
Parabéns - felicidades
... e beijinhos

Tinta Azul disse...

:)

António Torres disse...

Hoje é o único domingo do ano que não é dia do Senhor.
Hoje é dia da Senhora.
O calendário parece bastante injusto...

mfc disse...

Uma escolha linda!
As Mães são absolutamente únicas... mas eu festejo o dia a 8 de Dezembro!
Burro velho não muda.

jrd disse...

Eugénio, esse portuense beirão que cantou a Mãe, todas as Mães, como poucos filhos o souberam.
Magnífico!


«No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...
Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."
Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...»

Obrigado.

© Piedade Araújo Sol disse...

um belo texto para um dis especial para todas as mães!

obrigada!

Violeta disse...

Lindo texto de homenagem ao dia da mãe.
Obrigada!
bjs

Vieira Calado disse...

Obrigado pelo texto

e pela música.

Cumprimentos meus

lino disse...

O grande José Fontinhas:))

intimidades disse...

feliz diz da mae :)

adorava ter conhecido a minha

Jokas

Paula

intimidades disse...

obrigada :):):)


Jokas

Paula

mundo azul disse...

__________________________________

Belíssimo texto!

Obrigada, por compartilha-lo conosco!


Belas imagens...

Beijos de luz e o meu carinho!!!

________________________________

mariam disse...

Muito bonito!

Parabéns! Mãe Mdsol.

um beijinho
mariam

heretico disse...

prodigioso texto.

vigorosa ilustração. (mãe-loba).

excelente.

Véu de Maya disse...

As mães são a luz do universo no olhar das crianças...preciosa esta efeméride.

beijinho,

Véu de Maya