30 outubro, 2008

há viagens que vêm mesmo a calhar






Gretta Sarfaty Marchant
travelling
(1997)











Queixa das almas jovens censuradas


Dão-nos um lírio e um canivete

e uma alma para ir à escola

mais um letreiro que promete

raízes, hastes e corola


Dão-nos um mapa imaginário

que tem a forma de uma cidade

mais um relógio e um calendário

onde não vem a nossa idade


Dão-nos a honra de manequim

para dar corda à nossa ausência.

Dão-nos um prêmio de ser assim

sem pecado e sem inocência


Dão-nos um barco e um chapéu

para tirarmos o retrato

Dão-nos bilhetes para o céu

levado à cena num teatro


Penteiam-nos os crânios ermos

com as cabeleiras das avós

para jamais nos parecermos

conosco quando estamos sós


Dão-nos um bolo que é a história

da nossa historia sem enredo

e não nos soa na memória

outra palavra que o medo


Temos fantasmas tão educados

que adormecemos no seu ombro

somos vazios despovoados

de personagens de assombro


Dão-nos a capa do evangelho

e um pacote de tabaco

dão-nos um pente e um espelho

pra pentearmos um macaco


Dão-nos um cravo preso à cabeça

e uma cabeça presa à cintura

para que o corpo não pareça

a forma da alma que o procura


Dão-nos um esquife feito de ferro

com embutidos de diamante

para organizar já o enterro

do nosso corpo mais adiante


Dão-nos um nome e um jornal

um avião e um violino

mas não nos dão o animal

que espeta os cornos no destino


Dão-nos marujos de papelão

com carimbo no passaporte

por isso a nossa dimensão

não é a vida, nem é a morte

Natália Correia, "O Nosso Amargo Cancioneiro"


José Mário Branco, queixa das almas jovens censuradas

[mal eu sabia que viajar nesta altura me pouparia desgostos presenciais... e enquanto o pau vai e vem folgam as costas... não se trata de fugir... trata-se de ter mais tempo e distância para...lidar com gente que não se enxerga ... não se preocupem...isto são desabafos muito caseirinhos... é que isto das prepotências e da tentativa de manipulação das consciências e da individualidade de cada um não se manifesta só à escala nacional.... é vê-los, muitas vezes críticos do que nacionalmente se faz, a exagerarem maus procedimentos e más práticas nas quintas em que têm reinados efémeros. uns tristes.]

14 comentários:

JPD disse...

Lindíssimo!
Poesia extraordinária.
Bela escolha.
Bjs

intimidades disse...

lindissimo

as vezes penso que o que vejo no espelho sou eu

Jokas

Paula

heretico disse...

num intendi nada, mas prontesssss!...

(não era para eu enxergar. certamente)

bom descanso.

abraço

Duarte disse...

Excelente rima cruzada...
Poema de difícil construção e denso, sendo belo.
:))
Beijos

~pi disse...

dão-nos o vazio todo mas não um vazio

que se encha

apenas um vazio ermo, cheio de vazio puro,

belíssima exausta letra, música,,,




~

anamar disse...

mdsol, mas afinal quem é que nao posso passar sem si....????

só hoje a menina pe podia apasiguar
na frustraçao de nao ter bilhete para ir "OUVER" O zé Mário...
o que me esfalfei por uma desistencia...
bom, mas na verdade ,os seus pots sa para mim uma homilia... mas só hoje lhe escrevo... até sempre
Ana

Anónimo disse...

Então bom descanso Mdsol. Renova-te com o sol que dele precisas (não chove muito por lá, ou chove?).
Andas sempre a iluminar e a aquecer tanta gente por aqui...reencontra, re-encanta-te e retorna...inspirada.

***

Carminda Pinho disse...

Mdsol,
este poema é dos mais bonitos da Natália. Ouvi-lo na voz do Zé Mário Branco, é sempre um momento sentido, para mim.

Quanto à "boquita" no fim do post, não percebi a que ou quem te referias, mas o mal deve ser meu, que já não ando a "bater bem".:)))

Beijos

rosasiventos disse...

... a

in-ven-tar de-va-ga-r o teu


nome,

um Ar de disse...

Como eu gosto da voz deste homem!...
O canto vem das entranhas...
[Beijo...]

Anónimo disse...

E há tríades que vêm mesmo a calhar !
E não é todos os dias que se tem Natália Correia cantada por Zé Mário Branco ...
:))) José-Carlos

Véu de Maya disse...

gostei muito do poema da Natália e da música do Zé Mário...

abraços

mariam disse...

:)))))

bettips disse...

Tudo me martela assim. Que há décadas o ouço dentro (desabafo caseirinho meu!).
Não nos dão o animal,
nem podemos espetar os cornos no destino.
Quantas vezes seguimos as baias obrigatórias: só o pensamento nos livra da arena.
E quanto percebo de distâncias oportunas, quem mas dera eu fazer.
Bj