24 outubro, 2008

2008 - 1958 = 50







Szaggars, S.
interweaving their fragrances











No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Álvaro de Campos, aniversário

O meu caríssimo amigo J. faz hoje 50 anos. Parabéns!


Marylin Monroe, happy birthday

11 comentários:

bettips disse...

Sempre que leio algo "destes" homens me espanto de nada saber, depois de tanto ler...
Os teus "outonos" amanhecidos são uma bela escolha tb!
Bj

Carminda Pinho disse...

Então! Aqui ficam os meus votos de parabéns para o teu amigo J.
50 anos é uma bonita idade, sobretudo para um homem...:)

Beijos para ti, mdsol.

Juani lopes disse...

Felicidades para J
sauditos

prafrente disse...

Parabéns então para o aniversariante.Também já celebrei 50 anos...ainda não perdi a esperança de chegar aos 120...nessa altura entrarei para uma universidade sénior...agora ainda me sinto júnior...resta-me saber se do outro lado da vida puderei continuar a minha formação...

bom fim de semana

mariam disse...

então Parabéns! "J"

e parabéns "Mdsol" por seres generosa...

bom fim-de-semana
um sorriso :)

mariam

mariam disse...

ah! esquece de dizer; o poema, de tão soberbo, não tem comentário possível! a música, o teu amigo deve estar delirante! :)

poetaeusou . . . disse...

*
Todo o vapor ao longe
é um barco de vela perto.
Todo o navio distante visto agora
é um navio no passado visto próximo.
,
in-alvaro de campos
,
felicidades para o teu amigo,
,
conchinhas
,
*

Anónimo disse...

MS...é isso mesmo, eu sobrevivente a mim mesmo como um fósforo quase frio.

quanto aos votos, agradeço a todos reconhecido.

o homem. agora de chapéu.

Duarte disse...

Um poema que convida à reflexão. Talvez pelos muitos anos que fazemos anos...
Assomo-me à felicitação

:)

Anónimo disse...

À quem faz(fez)50 nesses tempos. Oponho à Álvaro de Campos, um Rubem Alves. Menos conhecido por aqui, é alguém em quem muit@s(noutras paragens) se têm espelhado (pequenos e grandes), por compreender tão bem a alma humana e transmitir esperança de um jeito como ninguém.

“Se eu pudesse viver minha vida novamente, eu quereria vivê-la do jeito mesmo como a vivi, com seus desenganos, fracassos e equívocos. Doidice? Imaginem que eu estivesse infeliz. Eu teria então todas as razões para voltar atrás e tentar consertar os lugares onde errei. Mas eu não estou infeliz. Vivo um crepúsculo bonito, com a Suíte n. 1de Bach, para violoncelo. Se houve sofrimentos no caminho, imagino que, se não os tivesse tido, talvez a Suíte n. 1 de Bach não estivesse sendo ouvida. Estou onde estou pelos caminhos e descaminhos que percorri".

Quando perguntado por um estudante 'Como é que o sr. planeou a sua vida para chegar onde chegou?' R.Alves respondeu (como me identifico com essa resposta!):

"Eu estou onde estou porque todos os meus planos deram errado. Isso é absolutamente verdadeiro. As pontes que construí para chegar aonde eu queria ruíram uma após a outra. Fui então obrigado a procurar caminhos não pensados. E aconteceu, por vezes, que nem mesmo segui por vontade própria os caminhos alternativos à minha frente. Escorreguei. A vida me empurrou. Fui literalmente obrigado a fazer o que não queria.

Sofri a dor da solidão e da rejeição. Mas foi esse espaço de solidão na minha alma que me fez pensar em coisas que de outra forma eu não teria pensado.

Plantei árvores, tive filhos, escrevi livros, tenho muitos amigos e, sobretudo, gosto de brincar.. Que mais posso desejar? Se eu pudesse viver novamente a minha vida novamente, eu a viveria como a vivi porque estou feliz onde estou".
(Rubem Alves)

À quem faz ou fez 50 esse ano eu desejo (porque queria ter desejado antes e não pude), do fundo do coração, que ACENDA, PONHA FOGO À SUA VOLTA, INCENDEIE toda a floresta viva!

***

Anónimo disse...

o homem, agora de chapéu, não pode deixar de dizer:

o tempo foi realmente vivido...
uma cronologia por vezes absurda, entre desafios e desencantos, mas vivida, acreditando às vezes no impossível.

no entendimento do quase, o fósforo frio não deixa de ser fósforo.

na vida, estar quase frio quer dizer que já esteve quente ou quase.

e os fósforo não necessitam de isqueiro, eles são havidos na esperança da luz.

50 obrigados