15 janeiro, 2009

tem horas...







Motherwell, R.
the irregular heart
(1974)










Atravesso a rua proibida.
Desejo feito, quero medir-me
às passadas ...
... hesitações.

A que chão me apego? Não sei.

Há muralhas,
pastoras dos passos,
muros dormentes
dos horizontes sonhados.

Há paredes,
biombos de outras paisagens
onde não chego,
mesmo em dias santos de luz.

Restam-me imagens, presentes soltos.
Janelas indiscretas de momentos,
feitos a salto,
para uma terra com sabor a prometida.

14 janeiro, 2009

dia de poesia (data de formas coloridas)

 



Heron, P.
14, January, 1973
(1973)








 TEMPO DE POESIA

Todo o tempo é de poesia.

Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.

Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia.

Todo o tempo é de poesia.

Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas que a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia.

António Gedeão, movimento perpétuo (obra completa, 103-104)

último dia


Hoda & Nader Khoury , Ya Safini canção de "The last days of socrate" (peça musical de Mansour Rahbani* - dirigida por Marwan Rahbani 1998)

faleceu Mansour Rahbani

momento zen íssimo






Andine, P.
mother always used too much perfume
(2008)








Com três letrinhas apenas
Se escreve a palavra mãe
É das palavras pequenas
Como tal o é também!

13 janeiro, 2009

foot-ball association







Staël, Nicolas de
les footballeurs
(1952)










Soneto futebolístico

Machismo é futebol e amor aos pés
São machos adorando pés de macho
e nesse mundo mágico me acho
em meio aos fãs de algum camisa dez.

Invejo os massagistas dos Pelés
nos lúdicos momentos de relaxo,
servindo-lhes de chanca e de capacho,
levando a língua ali, do chão no rés.

É lógico que um cego como eu
não pode convocar o titular
dum time brasileiro ou europeu.

Contento-me em chupar o polegar
do pé de quem ainda não venceu
sequer a mais local preliminar.


Glauco Mattoso [os cem melhores poemas brasileirs do século, 325]

provérbios à minha moda (4)

"Quem conta um conto, aumenta cinco euros"
"Quem quer vai, quem não quer...não anda"

mais aqui

12 janeiro, 2009

tem dias....






Van Gogh
the asylum garden at Arles
(c. 1889)







Podes ser bobo da corte ou teatral,
personagem de discurso verdadeiro,
da lucidez com manto intemporal,
"desrazão" és do percurso rotineiro,

que fabrica e inibe aos não eleitos
ser a sério, no seu mundo de tão poucos,
e precisa, para olhar os seus defeitos,
de distância, logo inventa os seus loucos,

a quem chama dementes e insensatos,
porque lê a vida a branco e preto.
Anti-desejo o "asilo" é o teu gueto!

Em nome de uma ordem estamos gratos,
p'la ilusão que o dia a dia segura,
que está longe e encerrada a loucura.

11 janeiro, 2009

...





Wolberg, P.
Gaza
(2007)

help me, socorro, balhamedeus ...

Não me perguntem porquê (eu não digo, só adianto que não sou masoquista, pelo menos conscientemente) mas, circunstâncias adversas, fazem com que, neste momento, um aparelho de televisão perto de mim esteja sintonizado num canal onde se batem muitas palmas a quem desafina (deve ser dos nervos, digo eu...). E, quando se aguentam minimamente no tom, até ao fim da cantiga, são heróis e heroínas!
Vou socorrer-me de dois jovens bloggers que eu visito com muito gosto. Espero que eles não levem a mal que me escude na sua juventude para desabafar (é que, na minha idade, já nada é uma irreverência). Imagino que a Isa diria pqp e o Jorge vão cantar e o c.

Eu acho que cantar numa roda de amigos é muito bom.

by the way
tenho pena de já não ser capaz de cantar. #%# da tiróide

polissemia a gosto




Feintuch, R.
change
(1998)




ouço falar bastante da necessidade de mudança de paradigma...


playing for change: song around the world "stand by me"

exercícios de aquecimento

porque, ao meio dia deste dia do senhor

Christoph König direcção musical
Antonin Dvořák Sinfonia n.º 9, Novo Mundo
Concerto comentado por Gabriela Canavilhas

€ 5

[No ano de 1892, Antonin Dvořák recebeu um convite irrecusável para trabalhar no Conservatório de Nova Iorque. Um ano após a sua chegada ao Novo Mundo, e inspirado na melancolia de canções populares que aí escutou, estreava aquela que viria a ser a sua mais célebre sinfonia. No primeiro concerto comentado de 2009 iremos descobrir que influências foram essas e a forma como Dvořák as integrou naquilo a que chamou as técnicas e cores da orquestra moderna. (Casa da Música, Agenda 2009, 67)]

[Aos Domingos ao meio-dia, a Casa da Música propõe-lhe uma nova forma de escutar as mais célebres sinfonias de sempre. Estes concertos dão-lhe a conhecer uma obra em detalhe com diversos comentários e ilustrações musicais que antecedem a sua audição na íntegra. Esta é igualmente uma oportunidade para descobrir os instrumentos da orquestra, os detalhes nas partituras, dados biográficos que as obras escondem, pequenas histórias sobre os compositores e o tempo em que as obras foram escritas. Destinados especialmente às famílias e com um preço reduzido, os concertos comentados da ONP têm sempre início ao meio-dia e a sua duração total é de aproximadamente uma hora. (Casa da Música, Agenda 2009, 66)]


Dvořák, sinfonia novo mundo

10 janeiro, 2009

nos deste mundo creio mesmo!






Tarsila do Amaral
anjos
(1924)









IV
Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além.

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.

Natália Correia

sábado à tarde (não só, mas também)






Matisse, H.
la coiffure
(1907)








estraguei tudo! tanto cuidado com o frio pela manhã ...


Caetano Veloso, debaixo dos caracóis dos seus cabelos (de Roberto Carlos)
[eu sei que não há tempo para ouvir as músicas todas, até ao fim... eu sei, mas há surpresinhas boas! No caso é coisa simples, levezinha mas aconchegante. Sem preconceitos! Ah! E o vídeo não interessa mesmo... mas o som é o que me pareceu melhor]

sábado de manhã (38)





VREL, Jacobus,
sleeping woman
(1654)




[queriam só Lempickas ( 1; 2; 3; 4; 5 ) não? com o frio que está... esta senhora está muito bem!]

paz (as)sentada



que não seja a falta de assento... a dificultar a paz








sentem-se e acertem-se!





09 janeiro, 2009

neve quentinha


Tibby, C.
mother and child
(s/ data)


10.49, neva no meu quintal... isto sim, interessa! E sabem porquê? Porque pôs uma alegria imensa nos olhos da minha mãe, que interrompeu o seu crochet, quase compulsivo, para ir junto da janela e, com ares de criança, dizer:
_ Olha, olha , e olha ali... e não vai pegar, que pena...
_ Pois não! Digo eu, para fazer conversa.
E, no seu eterno pragmatismo, que me desconcerta e me leva a pensar como fui eu tornar-me tão...pouco pragmática (para o caso serve esta expressão) diz naturalmente:
_Mas veio!

grrrrrrr em vez de brrrrrrrr (desabafo completamente gratuito)

1) Está muito frio, e depois? Por acaso estamos em Agosto? Já não posso ouvir falar de frio nos telejornais. [E quando vão a Bragança, com ar grave, perguntar pelo malfadado frio e as pessoas respondem que sim, que ainda bem... ah ah ah ah! sempre que medimos o mundo só a partir do nosso umbigo ...]
Arrepia-me mais certo jornalismo do que o frio... em vez de brrrrrr... faço grrrrrrrrrrr

2) O Cristiano estoirou um Ferrari... Felizmente não se magoou. Precisam de repetir até à exaustão e com tantos pormenores?
Irrita-me mais certo jornalismo do que a poupa do Cristiano (ou mesmo o próprio brinco a reluzir).

3) A Inês Serras Lopes foi condenada. Por favorecimento pessoal. Quase não se ouviu falar do assunto [lá está.... tinham de falar da baga de frio (desculpem estes assomos de sotaque à Porto) e do estoiro do Ferrari]. Mesmo nos blogs por onde andei, só vi referido aqui.
Incomoda-me mais certo tipo de corporativismo do que a voz de algumas pessoas.

adenda: o jorge c. diz que também falou do assunto I S L, mas através do twitter (lá tenho eu de aprender mais uma coisa destas geringonças informáticas... fui espreitar o que era o tal twitter e parece simpático. o que eu aqui aprendo balhamedeus!)

paz de corpo (2)




Shabelewska, S.
peace 2
(s/ data)

mesmo sabendo que nunca foi só assim





Ackermann, I.
kappeli
(s/ data)






LEMBRANÇA DO MUNDO ANTIGO

Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
A água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria. passavam bicicletas,
a menina pegou a relva para pegar um pássaro.
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranquilo em redor de Clara.

As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insectos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!

Carlos Drummond de Andrade, antologia poética, 73


Chico Buarque, João e Maria [2. 37] (linda, linda esta valsinha...)

07 janeiro, 2009

rosas brancas de mármore







Mancuso, J.
white marble rose
(2007)






Pablo Casals, suite nº1 (prelúdio) violoncelo Bach [2' 30'']

Imagem


Uma coisa branca,
Eis o meu desejo.

Uma coisa branca
De carne, de luz,

Talvez uma pedra,
Talvez uma testa,

Uma coisa branca.
Doce e profunda,

Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.

Uma coisa branca,
Eis o meu desejo,

Que eu quero beijar,
Que eu quero abraçar,

Uma coisa branca
Para me encostar

E afundar o rosto.
Talvez um seio,

Talvez um ventre,
Talvez um braço,

Onde repousar.
Eis o meu desejo,

Uma coisa branca
Bem junto de mim,

Para me sumir,
Para me esquecer,

Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.

Dante Milano

[Post feito a pensar nas crianças da faixa de Gaza e em todas as crianças de todas as faixas que...]