Foste embora, minha querida, demasiado cedo, demasiado depressa, demasiado antes de tempo. Escolheste o recato nesta recta final. Fico na dúvida se, ao respeitar a tua escolha, não te mostrei devidamente como gostava de ti e como te queria muito bem. Mas, pensando bem, eu sei que tu sabes e isso, sendo muito pouco, dá-me algum sossego neste momento triste, triste, triste. Olha, minha querida, hoje deu-me para vestir o casaco azul de malha, igual ao teu e que tão elegante te fazia.
Que as cores quentes do céu te afaguem. Com muita ternura.
O R. tem a minha idade. Colegas de escola primária, vizinhos e com um apelido comum embora não sejamos da família. Estudamos em colégios internos na mesma cidade. O R. como sempre me lembro dele, alto moreno com uns olhos verdes profundos e tímidos e o ar sereno de quem não precisa de se queixar de nada. O R. atleta, jogador de Voleibol tal como eu fui (ele muito melhor que eu), um rapaz bonito que se transformou num belo homem. O R. atencioso e muito paciente. O R. de quem me comecei a desencontrar quando fomos para a faculdade. Eu para Lisboa, ele para o Porto. Depois a vida trouxe-me para o Porto e a ele levou-o para África. O R. voltou já há uns anos largos mas, apesar do prazer de nos revermos, a distância e o tempo tinham-nos tornado quase desconhecidos. Não temos, por isso, falado ultimamente. O R., apesar da sua insistência, foi o namorado que eu não quis nos meus 16, 17, 18 anos. Soube hoje que o R. está a morrer. É impossível não chorar.
Na quarta-feira morreu a mãe de uma das minhas amigas mais chegadas. O funeral foi na quinta-feira. Na quinta-feira à noite morreu a mãe de uma das minhas amigas mais chegadas. O funeral foi esta tarde. Ambas as mães tinham mais de 90 anos e morreram tranquilamente, como se resolvessem descansar de tudo. Uma morreu num lar. Outra morreu em casa. Ambas as filhas foram desveladas, presentes e amorosas.
Assim se vai fechando um ciclo. A amizade renova-se. E, por momentos, fica ainda mais claro o que é mesmo importante.