01 agosto, 2010

bitaite






Jackowski, Andrezej
vigilant fox
(2009)




1) Não haverá uma alma sabedora e bem intencionada no Ministério da Educação que impeça a Ministra de transformar uma abordagem, que parece correcta, de um problema real, em meia dúzia de frases que mal acabam de ser ditas já precisam de ser parafraseadas?

2) Mas não se estava mesmo a ver que, colocado da maneira que foi, o assunto da não reprovação ia despertar muitos comentários oportunistas, precipitados e demagogos?  E ter um tratamento jornalístico próprio dos tempos actuais?

3) Agora para os que pensam mesmo que não reprovar é, forçosamente, facilitar: era uma vez um país onde, não há muito tempo (possivelmente quando muitos de nós andavam no Liceu) só muito poucas crianças e jovens chegavam ao ensino secundário (e à universidade muito menos). O Liceu era um local onde só andavam os que davam para os estudos. Por isso, os problemas de aprendizagem, cognitivos ou de outra ordem, quase não se colocavam. Pois se só lá andava quem dava para aquilo? Se o aluno, à partida, tinha condições para aprender e se não aprendia porque era cabulão, é natural que não passar de ano fosse castigo suficiente para aprender a mudar de hábitos e passar a ligar mais um pouco à coisa.

4) Com o acesso generalizado de toda a população à escola quem a frequenta não é só quem dá para os estudos (e não vamos discutir agora o dá para quê). Na escola há questões novas a resolver. Há novos alunos com novos problemas que não podem ser resolvidos com soluções do tempo da máquina a vapor. Tem isto a ver com facilitismo? Não forçosamente. 

5) Há problemas que a reprovação só acentua. A lógica é outra, faço-me entender? Não se trata de facilitar a passagem, trata-se de resolver o problema do aluno por outras vias  que não a simples reprovação e, deste modo, até impedir que os alunos que dão bem para os estudos, sejam prejudicados em turmas muito complicadas onde se gasta muito tempo com as questões da organização da aula, tempo que faz muita falta para as actividades de aprendizagem da matéria propriamente dita.

6) Pior é continuar na mesma lógica e, depois, quando não funciona, abrandar-se o rigor para despachar o assunto. Isso sim, ajuda o facilitismo.

Fica este apontamento rápido. Mas, cada vez mais confirmo a tese: no ME deve haver submarinos que gostam de afundar decisões políticas que, à partida, têm potencial para andar em terra firme. Já com a ministra anterior era a mesma coisa. E não pode ser só falta de comunicação.

[Adenda: podem sempre argumentar que quem não dá que saia da escola. Pois, mas aqui entra a minha firme convicção de que todos têm direito à educação e à formação adequadas, de modo a desenvolver em cada um a possibilidade de ser gente de corpo inteiro]

17 comentários:

lima disse...

COMENTÁRIO AO POST "BITAITE", DE MDSOL, NO BLOG "BRANCO NO BRANCO"

00- Este post surge como parte de um amplo debate, que a Senhora Ministra da Educação, veio propor, de facto centrado no “Insucesso Escolar”.

01- A questão é essa , não a interpretação restritiva e maniequista, do “chumbo” ou “não chumbo”. E, é nesse restrição e afunilamento, que reside a torpeza e mediocridade desta Oposição.

02- O post é um bom contributo para o debate, ao reconhecer e explicitar uma “Dinâmica de Mudança” na composição dos sucessivos agregados frequentadores da Escola, ao longo do tempo, desde ainda o anterior regime e o momento que vivemos.

A Autora do post assinala a “Mudança”, e tal é decisivo para o debate.

Coloca-se, assim, numa postura diferente da Oposição e dos Dirigentes Sindicais dos Docentes, todos irmanados numa visão estática, fixista e imobilista da realidade mutante, permanentemente mutante.

03- Esta postura da Oposição indicia uma comum e urdida posição, monocórdica, numa base comum do modo de Interpretar o Mundo, no modo de Estar no Mundo, e no modo de o Transformar.

Trata-se de uma “Convergência”, a que acrescento o qualificativo de “Negativa”, pois sobre a magna questão do “Insucesso Escolar”, nem uma palavra disseram, enquistados, todos, no bombástico e estridente “chumbo” ou “não chumbo”.

04- A tese “conspirativa”( decorrente do uso da palavra “Submarino”) , à partida não deve ser exclúida.

Mas, a minha vivência, aponta para que teses desse tipo- “conspirativa”- isolada, passam ao largo da essência das coisas, quedando-se no acessório e circunstancial, e deixando escapar o centro nevrálgico dos fenómenos e acontecimentos.

05- Subjacente a esta comum reacção da Oposição temos uma opção pela “Exclusão” em detrimento da “Inclusão”.

E temos um fundo repressivo, com um apego a uma “estigmatização” punitiva, debilitando ainda mais a Auto-Estima dos alunos com mais dificuldades de aprendizagem.

06- Estamos perante um apelo silencioso à “Palmatória” e às “Orelhas de Burro”, humilhantes.

Mas também estamos perante o retomar do “Safanão Dado a Tempo”, de Bissaia Barreto, o amigo, confidente e conselheiro de António de Oliveira Salazar.

07- Termino com uma nota de apreço à nota de moldura do texto


Saudações Amistosas e Afáveis com os Melhores Votos de Bom Domingo e Boa Semana

ACÁCIO LIMA

Francisco Clamote disse...

Parabéns, MDSOL. Excelente abordagem e judiciosas considerações.

Rogério Pereira disse...

Alto, isto hoje merece 2ª visita...
(nunca comentei a MdSol, sem uma leitura atenta, seguida de profunda reflexão. Como não fiz nenhuma dessas coisa, volto mais tarde...)

Até já

João Menéres disse...

Lamento, MdeSOL, mas não concordo contigo na maior parte do teu raciocínio.

Qualquer actividade profissional é digna, desde que executada com seriedade e, portanto, BEM EXECUTADA.

Não é preciso que todos nós sejamos doutores ou engenheiros !

Antigamente, havia as escolas industriais e as comerciais,
Agora com tanto facilitismo, nem português sabem ler, falar ou escrever!
A reprovação (e as suas consequências, servem para chamar à realidade o cabulão e o preguiçoso.

COM UM BEIJO.

mdsol disse...

João Meneres:

Estamos a dizer a mesma coisa, mais ou menos, acho eu.

:)))

Sofia Loureiro dos Santos disse...

Totalmente de acordo, Mdsol.

lino disse...

Excelente texto.

ariel disse...

Boa, Maria do Sol. Eu de assuntos de "Educação" nada percebo, ainda bem que há alguém capaz de me explicar, no meio de tanta cacofonia uma pobre de espírito perde-se...
:)))

jrd disse...

Um texto excelente sobre um assunto muito delicado e polémico.
Não tenho uma visão do assunto tão "formatada".
Reconheço que a educação e a formação são direitos fundamentais, mas entendo que dificilmente se articulam com o primado da ignorância recompensada.
Além disso, depois vem a Universidade.

Quanto aos submarinos, como água é o que mais se mete naquele ministério, estão como peixe na dita...

À margem: O meu próximo "short and Sharp" não é uma provocação. ;)

mdsol disse...

O post é um apontamento naturalmente breve. Se não deixa claro que é em nome do rigor e do trabalho sério que eu defendo o que defendo, então eu não fui feliz no modo como disse.
Ainda assim, em minha "defesa" respigo o seguinte, do texto:
5) ... tempo que faz muita falta para as actividades de aprendizagem da matéria propriamente dita. (Logo eu entendo que os alunos estão lá para aprender)

6) Pior é continuar na mesma lógica e, depois, quando não funciona, abrandar-se o rigor para despachar o assunto. Isso sim, ajuda o facilitismo.

:)))

intimidades disse...

Execelente texto...

oo que me parece que esta a acontecer em portugal e estando agora a viver fora, e um generalizado, nao quero saber, vai.se resolver....

as pessoas ficaram presas a uma falsa e facil ilusao de seguranca...

E vale para tudo, quer para o ensino quer para tudo o resto

e quando alguem "destroi" essa ilusao, fica tudo com medo

Beijos
Paula

António P. disse...

Ainda bem que há quem pense :))
Tema delicado, mas se nos fecharmos em chavões não percebendo que a realidade mudou...estamos tramados.
Boa semana

O Puma disse...

Chumbo na senhora ministra

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Estou completamente de acordo consigo, MdSol. Antes de ler este post, deixei um comentário noutro blog em que dizia mais ou menos isto:
Uma proposta com aspectos positivos que peca por ser inoportuna no momento da apresentação e por ser mal explicada, suscitando confusões e ataques oportunistas da oposição.

Daniel Santos disse...

Tenho duvidas se que alguém esteja preparado para as dificuldades da vida se sempre passou sem dificuldades, sem o possibilidade de reprovar.

As crianças/jovens, devem ter a noção que só lutando, trabalhando podem chegar lá acima. Devem ter a noção que serão penalizados se não se aplicarem.

mdsol disse...

Daniel

Mas eu não defendo passar por passar. O equívoco é esse. Adoptar medidas novas, adequadas, não continuar no não sabe chumba e toca a andar, não significa: não sabe, passa e toca a andar. Muito pelo contrário. Não sabe, tem de saber e passar. É diferente. O que eu sei é que há alunos que, sem ajuda, não são capazes de saber. Faço-me entender?

:)))

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Vou fazer link para a série "pelo país dos blogs"
:-)