09 março, 2008

possibilidade (e...precária...)












"Compreender a felicidade de o chão sobre o qual tu te encontras não pode ser maior que os dois pés que o cobrem".
F. Kafka, Aforismos, Ed. Ulmeiro, 11.

08 março, 2008

olhos nos olhos



um dos meus Chicos... preferidos

(se o caso não fosse um caso muito sério... apetecia-me, simbolicamente, dedicar isto à Mª de Lurdes Rodrigues e ao Mário Nogueira....

...quando a realidade é muita já só brincando com ela a vou aguentando...)



06 março, 2008

Gabo - 80 anos




"auto qualquer coisa"

A VIRTUDE DA ACÇÃO
A coragem não é um acto isolado, um impulso momentâneo. É uma acção completa e complexa que deve ser perseguida até ao seu objectivo final. Os maiores esforços não são os do início, mas os necessários, depois, para resistirmos às nossas fraquezas e aos obstáculos imprevistos que devemops enfrentar com paciência e sagacidade. A coragem não é só a virtude do começo, mas sim da prossecução, da conclusão e da clarividência.
F. Alberoni in "Tenham Coragem", Bertrand Ed.,39
imagem: sisters of courage in: http://www.synthiasaintjames.com/gallery.html

04 março, 2008

opesidade

é o peso da idade

terça feira (entre o pingo de mel e a feira da ladra)

by the way
como qualquer mortal, as terças feiras da minha vida oscilam, variam,
umas têm sabor a mel outras a fel,
e nem sempre se distingue bem o mel do fel....
no fim de contas... é mesmo só consoante...

a questão só se coloca por causa de uma certa teimosia
(teórica) minha ... afinal, bem vistas as coisas, se verdadeiramente se quisesse, ora bem, enfim, se (sempre condicionada pelo condicional)
...as terças feiras poderiam todas saber a mel...
R... o Rousseau, o Padre Américo, a minha leitura
(quando miúda) do Novo Testamento, o meu primeiro namorado que me achava o máximo por eu ser ingénua e, já agora, a minha mania de não querer ver mal em nada.
Às vezes questiono-me se sou morena só por fora!



TERÇA FEIRA

É terça feira
E a feira da ladra
Abre hoje às cinco
Da madrugada

E a rapariga
Desce a escada quatro a quatro
Vai vender mágoas
Ao desbarato
Vai vender
Juras falsas
Amarguras
Ilusões
Trapos e cacos e contradições

É terça feira
E das cinzas talvez
Amanhã que é quarta-feira
Haja fogo outra vez
O coração
É incapaz
De dizer
"tanto faz"
Parte para a guerra
Com os olhos na paz

É terça feira
E a feira da ladra
Quase transborda
De abarrotada

E a rapariga
Vende tudo o que trazia
Troca a tristeza
Pela alegria
E todos querem
Regateiam
Amarguras
Ilusões
Trapos e cacos e contradições

É terça feira
E a feira da ladra
Fica enfim quieta
E abandonada
E a rapariga
Deixou no chão um lamento
Que se ergue e gira
E roda com o vento
E rodopia
E navega
E joga à cabra-cega
É de nós todos
E a ninguém se entrega

Sérgio Godinho: Album Kilas, o mau da fita (1980)


CLC - ML (calor luz cor - movimento leve)

GIRASSOL AZUL

1. como o moscardo distingue o girassol,
assim eu distingo cada cadeira em que estiveste sentada.

2. meter-te a língua e respirar fundo
como o pisco faz com o girassol

3. só de imaginar a polpa do girassol,
há uma cabeça que chora de alegria.

Alberto Pimenta in: Religião do Girassol, Antologia org. por Jorge Sousa Braga, 35.
imagem: Julio Resende in: Religião do Girassol, 59

..."Chagallo"...




Marc Chagall: Le Coq Blanc et les deux amants




02 março, 2008

se é.... é

imagem: R. Magritte: os Amantes


01 março, 2008

beijinhos paternalistas

UMA CANTIGA DE AMOR

Tu não me mandes assim para o fundo
tu não me mandes assim no meu mundo
tu não me dês beijinhos paternalistas
a dar nas vistas a quem
já te conhece tão bem

Vem pôr amor, amor, vem pôr
amor, vem pôr dentro de mim
tem dor vem pôr amor amor
amor tem dor dentro de mim

Tu não me vivas assim o meu dia
tu não dês vivas a quem ria
do que tu eras antes de seres o que és
e nos pés te calçou
o que a um outro roubou

Vem pôr amor vem pôr…

Tu não escondas de mim essas unhas
tu não escondas de mim testemunhas
duma palavra que nos demos assim:
era não quando era não
era sim quando era sim

Vem pôr amor vem pôr...

in: De pequenino se torce o destino (1976). Talvez o disco "mais datado" do Sérgio Godinho
letra em: http://www.pflores.com/sergiogodinho/discografia/


by the way
na altura sabia o "disco" de cor... cantava-o com tanto empenho que a minha amiga Ana dizia que eu cantava melhor que o dono....ehehehe. esta canção falava do amor como eu achava que ele era naqueles revoltosos anos: era não qd era não; era sim qd era sim... como se a vida fosse a preto e branco...




as palavras de hoje, sem critério nem intenção

cereja
namorar
branco
alfazema
hortelã
água
tarefa
aurora
caminho
verde
seara
colinho


...da minha arca de "num é" (2)...

é a música que associo ao tempo e ao espaço e ao cheiro e à cor e aos olhos e às socas e ao nº da porta esquecido na ingenuidade de tempos quentes em que a decisão teve de ser completamente fria.

Elis Regina 1978 Portugal-Apresentação dos músicos/Romaria

29 fevereiro, 2008

a realidade é o que é?


by the way:
as "cobras" rodam por aí, espontaneamente, onde menos se espera ... onde deveriam estar paradas...


imagem:
"Rotating snakes" Circular snakes appear to rotate 'spontaneously'
em: http://www.ritsumei.ac.jp/~akitaoka/index-e.html

...da minha arca de "num é" ....






um galo oferecido em forma de postal

















um galo vermelho retribuído em forma de cartaz










um galo mimoso ... para desempatar...






imagens:
???????????- Galo de Barcelos
Marc Chagall - Coq rouge
3ª Pablo Picasso- Rooster

vídeo: Sérgio Godinho "O galo é dono dos ovos" do álbum Pano Crú (1978)

28 fevereiro, 2008

doces amigos

em tempos de ASAE's e polícias da saúde
mais papistas do que eu sou para doces,
deixo aqui
"jesuítas e limonetes" da confeitaria Moura em Sto Tirso,
...excelentes

mas ....os verdadeiros doces que eu encontro em Santo Tirso
são os meus amigos....
especialmente a doce M.



27 fevereiro, 2008

prece preocupada (embora atrasada)

...dai-lhes a paz...

_ Menino Deus, Príncipe da Paz, Deus todo Poderoso, lembra-Te do povo de Timor que por Ti foi confiado à minha guarda. Escuta as suas preces, vê o seu sofrimento. Vê como não cessam de Te invocar, mesmo no meio do massacre. Senhor, libertai-os do seu cativeiro, dai-lhes a paz, a justiça, a liberdade. Dai-lhes a plenitude da Vossa graça.

Glória a Ti, Senhor!
in O Anjo de Timor (2003)
Sophia de Mello Breyner Andresen
ilustrações de Graça Morais

26 fevereiro, 2008

saudades de solidariedades



Nota:

houve um tempo em que viajava muito de carro. Associo esta canção a viagens sem fim no meu clio cor de burro quando foge, de porta amolgada e tremelicante mal eu passava dos 110km...
sendo de Lisboa nunca se importou de me acompanhar dias a fio até C.


A Canção de Lisboa

Jorge Palma

Composição: Jorge Palma

Os serões habituais
As conversas sempre iguais
Os horóscopos, os signos e ascendentes
Mais a vida da outra sussurrada entre os dentes
Os convites nos olhos embriagados
Os encontros de novo adiados
Nos ouvidos cansados ecoa
A canção de lisboa

Não está só a solidão
Há tristeza e compaixão
Quando sono acalma os corpos agitados
Pela noite atirados contra colções errados
Há o silêncio de quem não ri nem chora
Há divórcio entre o dentro e o fora
E há quem diga que nunca foi boa
A canção de lisboa

Mamã, mamã
Onde estás tu mamã
Nós sem ti não sabemos mamã
Libertar-nos do mal

A urgência de agarrar
Qualquer coisa para mostrar
Que afinal nos também temos mão na vida
Mesmo que seja a custa de a vivermos fingida
O estatuto para impressionar o mundo
Não precisa de ser mais profundo
Que o marasmo que nos atordoa
Ó canção de lisboa

As vielas de néon
As guitarras já sem som
Vão mantendo viva a tradição da fome
Que a memória deturpa e o orgulho consome
Entre o orgasmo e a gruta ainda fria
O abandonado da carne vazia
Cada um no seu canto entoa
A canção de lisboa

agora a cores e ao vivo

25 fevereiro, 2008

a propósito de uma canção do Jorge Palma

eu não percebo como uma relação que, de uma certa forma, não existe, pode ser tão íntima

imagem: "sombra- janela - muro" de Tinta Azul em: www.aluaflutua.blogspot.com

canção "Encosta-te a mim" de Jorge Palma em : http://www.youtube.com/watch?v=Tu9HPz__3ys

Encosta-te a mim

Encosta-te a mim,
nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim,
talvez eu esteja a exagerar
encosta-te a mim,
dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou,
deixa-me chegar.
Chegado da guerra,
fiz tudo p´ra sobreviver em nome da terra,
no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem,
não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói,
não quero adormecer.
Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.
Encosta-te a mim,
desatinamos tantas vezes
vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.
Eu venho do nada porque arrasei o que não quis
em nome da estrada onde só quero ser feliz
enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.
Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo o que não vivi,
um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim

Jorge Palma




23 fevereiro, 2008

verdes linguagens, anos perpétuos

CARLOS PAREDES

Não são dedos:
são lágrimas.
Não são cordas:
são fios de saudade.
Não é um país: é um coração
que soletra lágrimas
na saudade que temos de nós mesmos.

They are not fingers:
they are tears.
They are not strings:
they are threads of longing.
It is not a country: it is a heart
That spells tears
in the longing we feel for ourselves.

Mia Couto in Movimentos Perpétuos - Textos para Carlosa Paredes, 82

http://www.youtube.com/watch?v=XwhV1ivYNsQ