Stuber-Pearson, Marguerite
two friends
A cena passa-se ao fim da tarde de ontem, dia 12 de Julho de 2010, durante um exercício politicamente incorrecto, em casa da minha queridíssima amiga M. - a fumar um cigarro na varanda.
A conversa é trivial, sobre os afazeres de cada uma [a M. é uma excelente professora do ensino secundário, das que se desiludiu com as mudanças da ministra Mª de Lurdes Rodrigues] e algumas minudências caseiras, sempre com o sentido mais geral que conseguimos dar ao que dizemos.
A M. fala-me enfadada das papeladas que tem de preencher neste final de ano. Pergunto-lhe com calma: mas diz-me lá, no fim desses balanços todos, não sentes que a reflexão necessária para estrutuares o discurso escrito, te deixa alguma coisa além do cumprimento chato de uma tarefa burocrática? Ãh, ãh! E uma cara característica da expressiva M. diz-me que só a sua delicadeza natural a impede de me dar uma resposta torta. Percebido isso logo ao segundo ãh, reformulo a questão para saber se, no primeiro ano em que teve de preencher a papelada, não foi obrigada a arrumar as coisas, a reflectir sobre o que tinha feito de uma forma mais sistemática... Ãh, no primeiro ano talvez, mas nada de especial. Ok. percebo, tu já és muito experiente, já tens muito conhecimento tácito acerca do teu trabalho. Mas, e os professores mais novos, não achas que lhes faz bem fazerem a avaliação do que se passou (ou não passou) na turma, nos projectos em que participaram? Ui, faz muiiiiito bem!, muito bem mesmo. Aaaah! acelera-lhes a experiência profissional, é isso, M? Mais uma expressão típica da M. e ambas percebemos que nos tinhamos entendido em relação a qualquer coisa que não era preciso nomear. A M. remata o assunto com o pragmatismo de quem precisa de muito tempo livre para sonhar: já acabei tudo, já mandei tudo.
...
_M. diz-me onde havemos de ir jantar. O J. faz hoje anos, não marcamos nada e não sei onde havemos de ir todos.
_O J. faz anos hoje? Então não é amanhã?
_ Não, é hoje, dia 12.
_Como? Hoje não são 11?
_Não, 11 foi ontem, DOMINGO.
_Ah!, oh!, ah!, olha aqueles documentos foram todos com data de 11!
_ Deixa lá, não deve haver problema... Bem, olha o Sócrates ... estás a ver? É por isso que eu ... ponho sempre muitas reticências ... Aqui fui eu que fiz uma cara das minhas, porque qualquer palavra seria a mais.
Seguiu-se um sorriso de menina rosada da M. sempre menina, enleado em algumas posições partilhadas com o BE e no seu coração rigoroso.


