04 abril, 2007

Eles

Quando eu era pequena, lembro-me de uma empregada a falar nos "do alto" a propósito da construção de uma estrada que, ao tempo, era considerada vital para quebrar o isolamento da aldeia. Mas, como se percebe pelo tom do que escrevo, eu já fui pequena há muiiiiiiito tempo. Pois bem, agora, democratização assumida, fala-se "deles". Normalmente para dizer mal, deles. Se, em termos muito gerais, a distância e a escala me permitem perceber o distanciamento deles e se, em termos nacionais, posso perceber parte do distanciamento deles, no meio concreto em que cada um se move, tenho imensa dificuldade em perceber a criação desta entidade que, comummente, se designa por "eles". O recurso sistemático e indiscriminado ao "eles" tem tanta demissão e tanto alheamento na sua base, que me leva a colocar o pé atrás em relação a quem, ao discutir procedimentos, rumos de instituições etc.etc.etc., se lhes refere de forma recorrente. Normalmente a culpa é deles, os méritos são nossos. Referem-se a eles como se eles existissem por geração espontânea e não fossem uma criação da sua própria demissão, da  sua falta de rigor, dos seus modos farisaicos de estar, dos  seus jogos de cintura (in)consequentes, da sua falta de clareza nos processos. E, "cantando e rindo", alimentam-nos, a eles, descansadíssimos. Mas, só até ao milésimo de segundo em que se sentem beliscados. Aí, salta de rompante e com convicção a entidade eles.
_A quem te referes?
_Oh pá! Então, tás a ver, a eles, os, tás a ver, sempre os mesmos, tás a ver...

Eles existem? Claro que existem, mas seriam menos e estariam menos se nós fôssemos mais.

2 comentários:

MNN disse...

E, além do mais, é que "eles" também fazem xixi rigorosamente igual aos outros.
Por outro lado, eles, muitas vezes, nem percebem muito bem porque raio são "eles", já que acreditam que são os "outros"...bem, nem todos "eles", mas pelo menos alguns...e em verdade há mais outros a pensar que há "eles" do "eles" a pensar que não são os outros.
Espero que faça sentido...mas também já é noite alta.
Boa Páscoa.

ana v. disse...

Li hoje, Maria do Sol. Ao contrário do que diz, saíu-lhe até muito bem. E não posso estar mais de acordo!
Um beijo
Ana