Árvore rumorosa pedestal da sombra
sinal de intimidade decrescente
que a primavera veste pontualmente
e os olhos do poeta de repente deslumbra
Receptáculo anónimo do espanto
capaz de encher aquele que direito à morte passa
e no ar da manhã inconsequentemente traça
o rasto desprendido do seu canto
Não há inverno rigoroso que te impeça
de rematar esse trabalho que começa
na primeira folha que nos braços te desponta
Explodiste a vida e és serenidade
e imprimes no coração mais fundo da cidade
e marca do princípio a que tudo remonta.
Ruy Belo, [cem sonetos portugueses, selecção organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, ed. terramar,135]