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11 janeiro, 2012
manhãs sem manha, com amanhã que se apanha
Parker, Erik
other side of morning
(2011)
Eric Clapton, early in the morning
A manhã parada
O azul.
A fundura da pupila.
Não é ainda a sede,
a matilha,
a febre.
O tronco nu -
a luz vacila.
Eugénio de Andrade, matéria solar, 10.
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08 dezembro, 2010
rumor da noite na chuva das árvores
Lamb, Thomas
blossom trees in the rain at night
Brad Mehldau, when it rains
Árvore rumorosa
Árvore rumorosa pedestal da sombra
sinal de intimidade decrescente
que a primavera veste pontualmente
e os olhos do poeta de repente deslumbra
Receptáculo anónimo do espanto
capaz de encher aquele que direito à morte passa
e no ar da manhã inconsequentemente traça
o rasto desprendido do seu canto
Não há inverno rigoroso que te impeça
de rematar esse trabalho que começa
na primeira folha que nos braços te desponta
Explodiste a vida e és serenidade
e imprimes no coração mais fundo da cidade
e marca do princípio a que tudo remonta.
Ruy Belo, [cem sonetos portugueses, selecção organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, ed. terramar,135]
04 dezembro, 2010
eu gostava muito de ter escrito assim

Hassam, Childe
rainy day in Paris
(1890)
Jacques Brel, la chanson des vieux amants
Paris
Se nos encontrarmos em Paris numa tarde cinzenta
com o tapete do Sena em transporte de emoções,
se nos encontrarmos em Paris
no café fumegante e denso de tabaco
as mãos que esconderes nas minhas serão pássaros
e a chuva de Outono cantará para nós.
Maria Sofia Magalhães, ciclo da pedra, edita-me, 92
07 novembro, 2010
há domingos assim (22)

Cassat, Mary
autumn (aka perfil de Lydia Cassat)
(1880)
Mas que sei eu das folhas de outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?
Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono
Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha
qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha
Ruy Belo, mas que sei eu
{monte abraão, [transporte no tempo],
todos os poemas,Assírio e Alvim, 278-279}
Nigel Kennedy melody in the wind
Um bom dia do senhor.
E, se as palavras não animarem, deixem-se rodopiar com a música!
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15 outubro, 2010
não fin(i)to

Stamos, Theodoros
infinity Field (Nemea Series 3)
(1973)
Charles Loyd, prayer
...
3
Quero apostar ao infinito.
Ainda não preenchi a minha proposta.
Talvez nunca chegue a preenchê-la.
mas sei que é a única que interessa
E talvez isso baste:
a minha aposta far-se-á por si
se eu a não fizer.
Fá-la-á por mim
o sopro que ajudei a nascer.
Roberto Juarroz, tríptico vertical, poesia vertical, editora campo das letras, 59
13 outubro, 2010
recato regato
Aldrich, George Ames
autumn stream
Há um regato
sinuoso,
fio de água
cristalino,
sibilino,
correndo pelo dorso
de prado clandestino.
É segredo que guardo,
cioso,
só para mim.
Quero-o assim,
aos pássaros e aos corços.
Jorge Avidal, instantes lugares evasões, ed. campo das letras, 34
Elsiane, across the stream
10 outubro, 2010
há domingos assim (19)
Bardone, Gu
mimosa
MIMOSAS
Todos os anos na mesma altura
a montanha veste o mesmo vestido amarelo
para ver se ainda lhe serve na cintura.
Jorge de Sousa Braga, fogo sobre fogo III
[o poeta nu - poesia reunida, assírio & alvim, 215]
Brad Mehldau trio, still crazy after all these years
Um bom dia do senhor :))
30 setembro, 2010
suas importâncias
Petrina, Pero Topljak
friends III
(2007)
Fernando Tordo, o amigo que eu canto
...
Nos dias de hoje ou nos tempos antigos
não preciso de menos que todos os meus amigos
Ruy Belo, à memória da Céu
{outono, [homem de palavra(s)], todos os poemas,
Assírio e Alvim, 229-230}
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23 setembro, 2010
quem diz corda não diz trela
Laranjo, Francisco
melodia discordante
(2008)
...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!
José Régio, cântico negro, poemas de Deus e do Diabo
João Gilberto & Tom Jobim, desafinado
17 setembro, 2010
hoje anoiteci assim
Smaldone, Jane
one dark teardrop in paradise
(2005)
Se aquilo que se diz ter sido destruído no Paraíso era destrutível, então não era essencial; mas se era indestrutível, então vivemos numa falsa crença.
Franz Kafka, aforismos, ed. Ulmeiro,20
Baden Pawell, tristeza
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06 setembro, 2010
manhã de segunda, mas uma boa semana (44)

Irons, Shirley
southpole, green
(2009)
G. Winston, walking in the air
Canção para o céu azul
(Páez)
Eia, eia, eia ...
o mar está em cima,
o mar está em cima,
a lua está em cima.
À volta nadam estrelas.
É o céu azul.
Eia, eia, eia, é o céu azul que está em cima.
Nadam estrelas.
poemas índios [poemas ameríndios, poemas mudados para português] por Herberto Helder, Assírio & Alvim, 81-82
27 agosto, 2010
Não sei se havia necessidade (6)
Leonardo da Vinci
Mona Lisa (La Gioconda)
(1503-1506)
Rat, Blek le
Mona Lisa with money
Nat King Cole, Mona Lisa
Mona Lisa Mona Lisa, men have named you
You're so like the lady with the mystic smile
Is it only 'cause you're lonely, they have blamed you
For that Mona Lisa strangeness in your smile?
Do you smile to tempt a lover, Mona Lisa?
Or is this your way to hide a broken heart?
Many dreams have been brought to your doorstep
They just lie there and they die there
Are you warm, are you real, Mona Lisa?
Or just a cold and lonely, lovely work of art?
Do you smile to tempt a lover, Mona Lisa?
Or is this your way to hide a broken heart?
Many dreams have been brought to your doorstep
They just lie there and they die there
Are you warm, are you real, Mona Lisa?
Or just a cold and lonely, lovely work of art?
Mona Lisa, Mona Lisa
26 agosto, 2010
a lâmina acerada do silêncio
Barnet, Will
silent seasons - summer
(1974)
O SILÊNCIO
Dai-me outro verão nem que seja
de rastos, um verão
onde sinta o rastejar
do silêncio,
a secura do silêncio,
a lâmina acerada do silêncio.
Dai-me outro verão nem que fique
à mercê da sede.
Para mais uma canção.
Eugénio de Andrade, Rente ao Dizer, 25
Simon & Garfunkel, bridge over troubled water
28 julho, 2010
calor
Ledgerwood, Judy
hot sun cool shade
(2010)
VERÃO
Era verão, pela varanda entrava
a madura ondulação do trigo,
o grito lancinante dos pavões,
o cavalo na sombra ardendo em cio.
Eugénio de Andrade, pequeno formato, 25
F. Mendelssohn, sonho de uma noite de verão, (abertura) - Direcção de René Leibowitz
14 julho, 2010
ar do mar
Fedden, Mary
sea breezes
(1991)
Charles Lloyd, the water is wide (vídeo de aluaflutua)
HÁ MUITO
Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vasa.
Sophia de Mello Breyner Andresen, mar, ed. caminho, 48
04 julho, 2010
há domingos assim (9)
Harms, Robert
blued white
(2005)
Charles Lloyd, figure in blue
II
É um lugar ao sul, um lugar onde
a cal
amotinada desafia o olhar.
Onde viveste. Onde às vezes no sono
vives ainda. O nome prenhe de água
escorre-te da boca.
Por caminhos de cabras descias
à praia, o mar batia
naquelas pedras, nestas sílabas.
Os olhos perdiam-se afigados
no clarão
do último ou do primeiro dia.
Era a perfeição.
Eugénio de Andrade, branco no branco, 12
Um dia do senhor perfeito. :)))
02 julho, 2010
beleza interior
25 junho, 2010
música florida

Heade, Martin Johnson
a magnolia on red velvet
Rodrigo Leão e Gabriel Gomes, a magnólia [de Luísa Neto Jorge], álbum os poetas (1997)
A MAGNÓLIA
A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu resplendor.
Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora -
necessária,e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu resplendor.
Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora -
necessária,e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,
desfolhando relâmpagos
sobre mim.
[Já publiquei o poema A Magnólia, de Luísa Neto Jorge aqui. E, aqui, mostrei a magnólia de Jorge de Sousa Braga.]
A música vale mesmo a pena, minha gente.
20 junho, 2010
há domingos assim (7)
Ezcurdia, Juan
the lovers
(2007)
Beethoven - sonata apassionata, 3º and.
piano Vladimir Horowitz
NINGUÉM MEU AMOR
Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos
Sebastião Alba, ninguém meu amor, a Rosa do Mundo - 2001 poemas para o futuro 2001,738
Um bom dia do senhor para quem passa. :)))
[Agora coloco a música antes das palavras para, pelo menos, ouvirem enquanto lêem! Ah poizé]
13 junho, 2010
há domingos assim (6)
.
Ialent, Antonio
primavera ima Abruzzo II
George Winston, longing love
X
De onde me chegam palavras?
Nunca houve palavras para gritar a tua ausência
Apenas o coração
pulsando a solidão antes de ti
quando o teu rosto doía no meu rosto e eu descobri as minhas mãos
sem as tuas
e os teus olhos não eram mais que o lugar escondido onde a primavera
refaz o seu vestido de corolas.
E não havia um nome para a tua ausência.
Mas tu vieste.
Joaquim Pessoa, o corpo, os olhos de Isa , Litexa Portugal, 1982
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