Schiele, Egon der prophet (doppelselbstbildnis*)
(1911)
"É ao outro Borges que acontecem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez já mecanicamente, a olhar o arco de um alpendre e o guarda-vento; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo o seu nome num grupo de professores ou num dicionário biográfico...
...Não sei qual dos dois escreve esta página."
J.L. Borges, Borges e eu (tradução de Ruy Belo), 99/101
Paco de Lucia - entre dos aguas
[*der prophet (doppelselbstbildnis - o profeta (duplo auto-retrato), que ninguém é obrigado a ...]
Somos seres olhados
Quando os nossos braços ensaiarem um gesto
fora do dia-a-dia ou não seguirem
a marca deixada pelas rodas dos carros
ao longo da vereda marginada de choupos
na manhã inocente ou na complexa tarde
repetiremos para nós próprios
que somos seres olhados
E haverá nos gestos que nos representam
a unidade de uma nota de violoncelo
E onde quer que estejamos será sempre um terraço a meia altura
com os ao longe por muito tempo estudados
perfis do monte mário ou de qualquer outro monte
o melhor sítio para saber qualquer coisa da vida
Ruy Belo, todos os poemas, (relações), 59
Lou Reed, september song (de K. Weil e M. Anderson)
[queria referir-me aqui, no meu modo singelo e do senso comum, a mais esta manifestação complicada da crise no mercado norte americano (AIG)..., porque como já tenho dito, isto não pode ser só poeminha e musiquinha e pinturinha, por mais interessantes que sejam. Sem tempo para alinhavar mais do que duas ou três frases, registo o momento como mais uma manifestação desta selvajaria e especulação financeiras em que se tornou o capitalismo! A mostrar à evidência que este modelo neo-liberal (ou lá como se chama) não funciona, ponto final! E que não pode ser justificado porque outros modelos (opostos) também não funcionaram. O que me espanta é ver quem acha natural tudo o que está associado à globalização e seja muito neo-qualquercoisa, admitir sequer que o que se está a passar nos Estados Unidos não tem nada a ver connosco. Mas haverá sector mais "imbricado" do que este? Deve ser de mim, que sou ignorante nestes assuntos e não olho para as coisas além do que a minha intuição... intuí! Ou a imaginação e criatividade, assentes em novos valores, apresentam serviço ou... é que isto da reserva federal ser bombeiro não me parece solução. vantagem é não haver fogos...]
Não não mereço esta hora
eu que todo o dia fui habitado por tantas vozes
que exerci o comércio num mercado de palavras
Não mereço este frio este cheiro tudo isso
tão antigo como os meus olhos
talvez mesmo mais antigo que os meus olhos
Ruy Belo, todos os poemas, 50
João Gilberto, chega de saudade [3.47]
Gal Costa, chega de saudade [3.54]
CHEGA DE SAUDADE
Composição: Tom Jobim e Vinícius
Vai minha tristeza e diz a ela que sem ela
Não pode ser, diz-lhe numa prece
Que ela regresse, porque eu não posso
Mais sofrer. Chega de saudade a realidade
É que sem ela não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai
Mas se ela voltar, se ela voltar,
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei
Na sua boca, dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser, milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim.
Não quero mais esse negócio de você longe de mim...
[Espero que estejam todos muito bem. Para ser franca, já estava com algumas saudades. :) para todos!]
É verão. Vou pela estrada de sintra
por sinal pouco misteriosa à luz do dia
ao volante de um carro que não é um chevrolet
e nesse ponto apenas se perdeu a profecia
Não há luar nem sou um pálido poeta
que finja fingir a sua mais profunda emoção
Chove uma chuva que me molha os olhos
e me leva a sentir saudades do inverno:
a luz o cheiro e a intimidade do fogo
Quem me dera o inverno. Talvez lá faça sol
e eu sinta aflitivas saudades do verão:
uma estação na outra é a autêntica estação
Ruy Belo, homem de palavra[s], in Ruy Belo, todos os poemas, Assírio e Alvim, 251/252
(também in quinze poetas portugueses do século XX, selecção e prefácio de Gastão Cruz, Assírio e Alvim, 387)